Lembranças Perdidas

Por: Angela Gasparetto

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Ela agora tem passos firmes e anda em um corredor iluminado, com pessoas bem vestidas e funcionárias que batem à máquina freneticamente. 

“Ah, estou trabalhando em São Paulo novamente!”, pensa
 
Depois tem relâmpagos de festas, de encontro com amigos, namorados,... alegria. 
 
Abre os olhos e se vê em um quarto branco com janelas amarelas. Do seu lado, só tem uma cama vazia. Entra uma moça vestida de branco que fala alto como se ela fosse surda e pergunta se não quer dar uma volta no jardim, pois ela tem visitas!
 
Visitas? Mas o que aconteceu? Está por acaso doente? Sente as pernas dormentes e percebe que não consegue andar. 
 
Os sentimentos que tem vão e voltam como um relâmpago e ela não consegue se situar em que situação, ano, cidade, país, está.
 
Meu Deus, que vazio imenso em que me encontro! - pensa. Enquanto a cadeira de rodas é empurrada, ela vê rostos estranhos que a olham, olhos vazios e enfermeiras sorridentes. 
 
Há um corredor também, mas com portas trancadas no caminho. 
Tem rasgos de memória em que se vê tocando piano, ainda jovem, casa cheia, as pessoas aplaudem, sorriem.
 
Depois se vê novamente em momentos de confraternização com pessoas bem vestidas, sorrindo, pessoas que a respeitavam muito.
 
Em seguida vem um vazio imenso, carregado de dor e frustração que remete suas lembranças ao um buraco negro em ebulição, o qual a leva para um campo minado de pesadelos. Nestes momentos ela não sabe o quê é verdade, alegria ou dor e só pensa em fugir.
 
Quando a memória começa a emergir, vem um branco onde tudo parece misturado e sem sentindo.
 
Alzheimer, dizem. A doença do esquecimento e do vazio a conta-gotas. Por mais que a doença a ataque, não consegue esquecer o filho adotivo, a casa de São Paulo, as irmãs que restaram.
 
Quando eles surgem a sua frente, há quase um grito de lembrança que rasga o seu cérebro e ela torna a vida como um náufrago que emerge a cabeça para fora da água escura.
 
Fica suspensa naquela verdade e naquele mar de carinho e certezas. Eles vão embora. Sempre vão.
 
Ao longe, ouve sempre uma música, Beethoven, tem certeza e os seus dedos acompanham lentamente as notas que somente ela ouve...

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