O Clandestino

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O coração da mulher intumesceu ao ouvir o som da bengala nas pedras da calçada e as palavras chorosas:

- Fica com a tirinha, fica?...é a última tirinha... Fica com o macaco, fica?... Pelo amor de Deus... Estou cansado, estou com fome... Fica com a tirinha do macaco, fica?
 
O coração da mulher cresceu, diminuiu, cresceu de novo.
 
- Quanto custa?
 
- Só sete real. Fica com ela, fica?
 
A mulher abriu o zíper da bolsa, retirou de lá uma bolsa pequena, abriu-a, retirou dela duas moedas e uma cédula, entregou ao homem. Recebeu a tirinha do bilhete do macaco, guardou na bolsa pequena, guardou esta na bolsa maior, fechou o zíper.
 
- Agora eu vou pegar o ônibus...Eu estou com fome, vou embora lá pra Palestina...
 
O coração da mulher viu o ônibus estacionado ali na praça, perto doa entrada do cemitério, desejou completar a boa ação.
 
- Vem, vou levar você até no ônibus.
 
O coração mole e o cérebro pequeno conduziram o cego, ajudaram-no a subir no coletivo, desejaram:
 
- Vai com Deus.
 
Com Deus e certamente com anjos de boa vontade a mulher se foi. O cego se acomodou no primeiro banco, esperou por uns quinze minutos, até que o veículo se pusesse em movimento. E nem mais cinco minutos se passaram, e um jovem tocou o ombro do cego, perguntando:
 
- Quer passagem até onde?
 
- Não quero passagem nenhuma... meu cartão está aqui... Enfiou a mão no bolso esquerdo da calça, trouxe-a cheia de papéis, amassados, documentos, um cartão sujo que, para ele, equivalia a passporte.
 
Aqui, ta vendo? É o meu cartão.
 
- Isso aí só vale pra ônibus urbano. Aqui não vale nada não, o senhor tem que pagar a passagem. 
 
O cego, irritadíssimo, começou a bater a bengala no piso, gritando:
- Não pago não. Não pago não.
 
- Então o senhor tem que descer, não vai pra Jeriquara não.
 
- Jeriquara? Eu não vou não. Eu quero descer na Palestina.
 
- Palestina? É nome de fazenda?
 
- Fazenda?. Eu moro na Palestina, eu quero descer na Palestina...
 
O motorista do ônibus era mais vivido, muito mais esperto que o cobrador. Percebendo o risco de confusão – fiscais, polícia, o diabo, estacionou o ônibus  junto ao meio-fio, explicou gentilmente ao cego que ele embarcara o ônibus errado. Pediu-lhe que descesse, que esperasse ali na esquina, que logo o seu ônibus passaria.
 
Quarenta minutos depois, além do ônibus, o cego perdera também toda a paciência. Batia nervosamente a bengala na calçada, reclamava em voz alta:
 
- Estou com fome... Eu não sei onde está o Terminal... Eu preciso pegar o ônibus... Eu estou com fome, preciso ir para a Palestina...
 
Por aquela rua pouco movimentada, sequer circulavam ônibus urbanos. 
 
Passavam poucas almas por ali. Todas, apressadas, ensurdecidas.

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