Olhos que sorriem

Por: Isabel Fogaça

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Luzia foi a pessoa que me ouviu chorar pelo meu primeiro namoradinho; dona de uma humildade ímpar, é a pessoa mais maravilhosa que conheci na vida, e não aceitava este elogio; era ela que levava meu irmão à missa, e o ser humano que meu cachorro mais adorava. Ela trabalhou em minha casa dos meus nove anos até quando ingressei na faculdade e só parou porque teve uma trombose que desencadeou um acidente vascular cerebral. Este desastre tirou sua fala e movimento de suas pernas.

Luzia era tímida, ficava escondida num canto da cozinha quando chegava uma visita diferente, mas logo tomava intimidade e gostava de falar da primeira vez que havia me visto: “A primeira vez que vi a Isabel, ela estava pintando com giz de cera no chão. Eu tenho três filhos de sangue, e dois de coração que é a Isabel e o Chico.”. Luzia entrava todos os dias às 8 horas da manhã e ia embora às 16 horas, andava cerca de quatro quilômetros a pé todos os dias, sempre com uma sacola de plástico com a marca de algum mercado, em um dos braços.
 
Luzia me ensinou tantas coisas que não consigo listar em um pequeno texto. Seu sonho era reformar sua casinha, e sua maior preocupação era pagar o mercado no primeiro dia do mês. Não tinha luxo com nada, sabia ler poucas palavras, tinha o desejo de que as filhas estudassem e pudessem ir aonde ela não conseguiu chegar. Suas coisas eram tão lógicas e simples que chegavam a dar inveja naqueles que podiam ter tudo e nada tinham. Sempre teve muita fé na vida. Tinha uma risada gostosa de escutar, e eu puxava seu braço para um forró só pra poder escutar.
 
Quando a Luzia ficou doente, meu coração partiu ao meio. Eu estava distante, queria abraçá-la e escutar a risada gostosa, mas não podia. Peguei um papel, uma caneta e escrevi uma carta, disse a ela que talvez no momento ela não pudesse soltar as palavras mas que o significado delas estavam em seu coração. “Eu te amo, Lu. O universo foi generoso comigo em me dar duas mães. Por favor, fique bem” foi uma das coisas que escrevi e minha mãe teve o cuidado de entregar a cartinha e ler palavra por palavra no pé de sua cama. Ela disse que a Luzia chorou.
Dias atrás fui visitar minha segunda mãe, ela conseguiu falar “Bel” e “saudade” com um brilho nos olhos tão único que em poucas vezes na vida me senti tão amada. Respondi “Te amo, Lulu. Gosto de você fortona e alegre!” E mais uma vez, ela sorriu com os olhos.

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