Hoje eu quero voltar sozinha

Por: Isabel Fogaça

329850

Minha história não tem ligação alguma com o enredo do filme com o mesmo título. O que acontece é que tenho pensado demasiadamente na arte do encontro da vida, afinal, não discordo que exista mágica em encontros casuais, especialmente naqueles que você sai de casa sem estar à procura de nada, eventualmente conhece pessoas, se apaixona, cria histórias, mas acredito que exista algo muito mais profundo em poder voltar sozinha.

Compactuo com Schopenhauer no sentido de não acreditar em relacionamentos duráveis, pois penso que, individualmente somos um poço de complexidade. Nesta vida conheci poucas pessoas que compreenderam a minha, ofereceram as respostas que eu precisava, e não é questão de ser exigente. 
 
Trabalhando como garçonete na noite, posso observar os mais diferentes tipos de casais, e de formas distintas todos procuram a mesma coisa: alguém que preencha o buraco da existência, aquele incomodo que todo o mundo já sentiu ou vai sentir em algum domingo às quatro da manhã, enquanto a TV reprisa o filme de ação.
 
Penso que nunca me permiti procurar minha metade da laranja porque há tempos que me sinto a laranja completa, e quando se está completo não é admissível que procure algo que o divida ao meio, é necessário soltar o pé no acelerador e ir além. Neste sentido, voltar sozinho pode soar melancólico demais enquanto a humanidade busca a felicidade voltando acompanhada para a casa, e é justamente o contrário.
 
O que eu quero é muito tempo nessa vida para poder chegar sozinha em casa, tomar banho com a porta aberta enquanto ensaio a coreografia de alguma cantora latina. Eu quero devorar meu bolo de banana sozinha só porque estou com muita vontade. Eu vou abrir meu livro na página que parei independente de que horas seja, também continuarei treinando yoga na vastidão da minha cama, e talvez eu acorde triste na madrugada, mas independente do horário, eu poderei acender a luz para escrever.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras