O show de Truman: o show da vida

Por: Sônia Maria de Godoy

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Há milhares de anos habitando nosso planeta, nós humanos temos procurado meios, através de experiências e memórias, de construir um mundo mais civilizado. Se formos pesquisar nas belas histórias que há séculos os mitos gregos e romanos compartilham, veremos que inúmeras vezes a obediência é exigida pelos deuses e que castigos cruéis são utilizados para tentar cercear atos dos humanos transgressores.  De lá até hoje, progressivamente, num processo civilizatório, ganhamos em sabedoria, mas tornamo-nos presas fáceis de comportamentos estereotipados, almejando a aprovação das pessoas. Gênios e místicos, pensadores, escritores, músicos, pintores e escultores, no entanto, com liberdade para criar e experimentar o novo, nos auxiliam a sair do estabelecido abrindo novas formas de pensar. Foi assim que saímos da Idade Média para o Renascimento. Tem sido assim através dos tempos.
 
É assim neste “Show de Truman”, filme brilhante e instigante de 1998 do diretor australiano Peter Weir, uma sátira, drama/comédia, sobre o controle da mídia sobre nossas vidas, com roteiro de Andrew Niccol. Nele assistimos ao criador Christof (Cristo? O Criador?)  contar sobre a criação e controle da vida de Truman Burbank (Jim Carrey) desde o seu nascimento até mais ou menos a idade de 30 anos. Manipula inclusive as emoções de Truman, através da criação de traumas e conflitos infantis, bem como milagres salvadores. Numa cidade cenográfica, Seahaven, personagens coadjuvantes  se dedicam a manter a crença de Truman no falso como se fosse real. Na verdade, uma produção televisiva que mantém um ser humano com memórias forjadas, onde a ausência e mesmo a proibição de comportamentos espontâneos tentam impedir a realização de sonhos e pensamentos criativos. 
 
Truman vive numa linha tênue entre realidade e ficção, e em determinado momento começa a perceber que existe uma realidade simulada, e que sua vida é uma mentira. Alguns sinais que passa a observar parecem oferecer-lhe certezas às intuições pressentidas de que tem vivido uma farsa. Além disso, os olhares trocados com determinada personagem de sua época universitária provocam nele um sentimento genuíno que o orienta em busca de outros rumos. O problema é que então sua criatividade nascente faz surgir o conflito com seu criador. Christof surpreende-se com o aparecimento das novas ideias e movimentos próprios de Truman, que se mostra um ser em busca de existência própria. A onipresença de Christof, o poder que sente exercer sobre Truman, o leva a acreditar-se com direitos sobre sua vida e morte.  E nos faz refletir: não estaria esta enorme bolha que continha Truman, impedindo-o de desfrutar da realidade, presente também em nossas vidas? Perdemos a noção de público e privado?  E por ausência de um olhar que nos desperte nossa essência humana, não estaríamos copiando comportamentos, dificultando ou impedindo acesso ao nosso mais íntimo eu, às nossas verdades? 
 
Na literatura, George Orwel (1903/1950) escreveu algo que nos lembra a saga de Truman Burbank neste filme: em sua obra “1984”, Orwel cria a possibilidade de que neste ano que dá nome ao livro, estaríamos todos controlados por uma figura abstrata, “O Grande Irmão”, que a tudo controla dada sua onisciência.  Este personagem, centro de todo poder, não pode ser conhecido por ninguém, porém todos o veem e são vistos através de projeções em seus trabalhos ou residências. Constantemente vigiados, cabe a todos a obediência. Realidade ou ficção? 
 
Em “O show de Truman”, conforme diz Suad Haddad de Andrade, que fará o comentário psicanalítico: “o que mais impressiona é que esta ficção não é tão fictícia assim. Vamos ver o porquê. Um jovem vive tranquilamente em uma pequena cidade; casa-se, tem um trabalho que o agrada, uma rotina de vida sem atropelos. Vai vivendo sem pensar; nem sabe se realmente ama sua esposa. Até que um olhar feminino o perturba e aí começam a ocorrer mudanças inusitadas. ” 
 
Para Truman, descobrir sua real condição, procurar experimentar suas próprias dificuldades, vencer desafios, o levam a se tornar mais corajoso e a se enfrentar com Christof, numa batalha de vida e morte, entre Criador e criatura. E assim como o titã da mitologia grega Prometeu quis compartilhar o fogo com os humanos, e foi castigado; como Eva quis comer do fruto da árvore da sabedoria, e foi punida com a expulsão do paraíso; vamos descobrir e discutir neste brilhante filme o que acontece com Truman ao desafiar a utopia criada por Christof. Ousará ele resistir à curiosidade de conhecer o que existe do lado de fora do paraíso criado por Christof? Seaheaven é um lugar onde Truman deveria estar protegido das mentiras e perigos que a vida em sua experiência real nos traz. Existe mentira maior do que a esta possibilidade?
 

Direção: Peter Weir
O australiano Peter Weir tem sido um brilhante diretor de cinema desde o ano de 1975, em que lançou seus primeiros filmes. Mas foi seu filme “O ano em que vivemos perigosamente”, de 1983, que o tornou mundialmente conhecido e o levou a dirigir filmes americanos e internacionais. A maioria destes fez imenso sucesso, como por exemplo “A testemunha”, de 1985, “A sociedade dos poetas mortos”, de 1989, a comédia romântica “Green Card” de 1990, “O Show de Truman”, em 1998, e “O Mestre dos Mares” em 2003.  Por seu trabalho nestes filmes seja como diretor, produtor ou escritor de roteiro original, ele recebeu seis indicações ao Oscar.

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