VOO

Por: Maria Luiza Salomão

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Antecipava um voo tranquilo. Mas, de saída, esqueci o celular no hotel, depois de fazer o check-in e despachar a bagagem... corre-corre, táxi voa baixo, e, ao retornar ao aeroporto, ouço: “última chamada, Maria Luiza Salomão, compareça ao salão de embarque”. Avião bufando a partida, entro no avião e tomo o meu assento, ao lado de um comandante, que voará até Campinas assumir seu posto, em outra rota.  De lá eu pegaria minha conexão para Ribeirão Preto.

Depois de breve tempo, um jato do banco de trás respinga na roupa do comandante: um garotinho com mal-estar súbito! Ajudo a limpar a roupa do comandante, a seu pedido, que diz, calmamente: “acontece!”. Não passa muitos minutos, o comandante do avião, fala aos passageiros: “não há limites mínimos para o pouso em Campinas! Teremos que aterrissar em São José dos Campos”. 
 
O comandante ao meu lado me traduz o que ocorre: a falta de visibilidade e de instrumentação que permite aterrissagens seguras na pista de Viracopos. No celular, visualizamos um aplicativo para saber dos ventos e das nuvens...E me diz que o aeroporto de São José dos Campos, reformado recentemente, está desativado. No saguão lotado, ao desembarcarmos, encontro passageiros - uns dormindo nos bancos, caras desconsoladas - vindos de Recife: a nave também impedida de pousar em Campinas. Na distribuição de biscoitos e sucos, a multidão avança, como gafanhotos: faminta. 
 
Na expectativa, depois de três horas que deveríamos ter pousado, entramos novamente no avião: abriu o “teto”. Ao reembarcarmos, o comandante me diz que o teto pode fechar, ao chegarmos em Campinas, e, caso ocorra, o avião vai para novo destino. Talvez Confins...Oh, Jesuisinho!
 
Clima tenso, uma grávida chora, outra menstrua fora de época. Turbulências, a montanha russa no ar, com coro de “ais” e muitos sustos, pousamos, finalmente, em Campinas. 
 
Em terra campinense, uma passageira se aproxima de mim, pergunta sobre o restaurante “A Girafa”, que aceita o voucher da alimentação. Chama-se Priscila. Ela me leva a outra passageira com o mesmo nome -  Priscila. Uma é psicóloga, comunicativa; a outra, advogada, grávida, que passou muito medo no voo.  
 
Um “happy end”: perdemos as conexões de voos, mas vamos continuar a viagem: o meu destino, Ribeirão Preto; uma Priscila para Porto Seguro; a outra para Belo Horizonte. 
 
Brindamos aos medos sofridos no voo, uma com cerveja; a outra, suco; eu, vinho tinto. Contamos causos, com tempo e disposição para conversar. Assunto: relacionamento entre homens e mulheres. As turbulências -  como fazer o relacionamento aterrissar em porto seguro?
 
Alegre celebração da vida.  O aperto vivido nos deu um tempo gracioso, espaço de viracopos, vira sentimentos. Em fases diferentes, em narrativas despojadas, três desconhecidas em gostoso congraçamento. 
 
Nada como uma ameaça imprevista para fazer surgir o nosso melhor ou o nosso pior. As Priscilas e eu: conhecemos o nosso melhor. Voamos baixo e alto nas palavras – em paz – temos nossos destinos de volta garantidos.
 
Despedimo-nos irmanadas e alegres: cada qual rumo ao seu diferente destino.
 
 (e nos tornamos amigas no facebook!)      

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