Fome

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Coubera-lhe percurso íngreme e pedregoso.
 
Houve uma hora em que seus pés tropeçavam, seus dedos se feriam. Da beira da estrada, as plantinhas anêmicas olhavam, amarelas, para seu caminhar e exalavam desânimo. À medida que sua vontade epilética experimentava ataques e acessos, encruzilhadas ainda se multiplicavam diante de seus passos apagados. Então, todos os nortes ficavam tortos, e era nenhum o cajado que fosse Cruzeiro do Sul, que fosse Ursa Maior, cuja ponta fosse imantada. Era nenhum o cajado que fosse arrimo.
 
Foi naquele ponto da estrada, naquele descampado e ermo de mundo que o imponderável nos fez tropeçar um no outro, ou no mesmo seixo. 
 
Naquele momento, já eram grossas as solas de meu pé – saldo advindo de atalhos percorridos, de sucessivos erros de escolha, quando as bifurcações tinham parido inseguranças. 
 
Eu já palmilhara tantas vias e veredas. Eu colhera já tantos calos.
 
Naquele momento, eu já atirara fora o alforge de fel, já semeara todas as abelhas que trouxera no embornal. Até já principiara incipiente colheita.
 
Por isso, naquele momento, segurei os ombros da mulher, lavei-lhe os olhos com uma colherada de mel, dei-lhe de beber a oferenda de minha mão calejada, dei-lhe o apoio de meu coração empedernido, de meu braço rude.
 
Sua humildade sorriu agradecida. Então, conduzi a mulher através do pântano, transpusemos terras esturricadas, subimos e descemos montanhas, atravessamos vales, alcançamos a planície.
 
Agora, o mundo se descortina em pomares, em verdes, em astros, em futuros. A mulher gargalha.
 
Agora, ignorando meus passos trôpegos, minha lassidão, a mulher – só lagos, só estrelas nos olhos – solta minha mão, vibra, grita adeuses, corre, salta a cerca da horta e, esfomeada, morde e mastiga e chupa todos os frutos da vida.

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