Chico

Por: Isabel Fogaça

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Chico é meu irmão mais velho e nesta semana ele completa trinta anos. Os otimistas encaram aniversários como um ano a mais de vida e aprendizado, os pessimistas enxergam nas comemorações a hipocrisia do ser humano que ignora estar cada vez mais perto da morte. Soa pouco egoísta, mas meu irmão não sabe o que significa fazer aniversário, para ele é uma data comum como todos os outros dias do ano.
 
Esses dias, no ocaso do silêncio, minha mãe jogou uma pergunta ao vento: “Como será que o Chico pensa?” e eu tentei imaginar hipóteses que se encaixavam com sua postura em diversas situações da vida, porém, tenho certeza que falhei. Então, minha mãe continuou: “Ele nunca fala quando está com dor, nem chora. Quais seriam suas angústias e inquietações?”. Pensei como é difícil estar triste e não conseguir chorar, e como uma dor de cabeça é muito mais chata quando não falamos quanto dói, mas meu irmão não fala.
 
Na escola, quando éramos pequenos, meus pais falavam que a minha maior obrigação era cuidar do meu irmão, e eu cuidava com todo carinho. Algumas crianças zombavam, outras perguntavam muito curiosas: “o que ele tem?”, “por que ele não conversa?”, “por que ele fica balançando?”. E minha boca respondia diferentemente do meu coração, a voz interior dizia que ele não poderia ser mais amado, e o suspiro levava as palavras aos curiosos: “por que vocês não vão cuidar de suas vidas?”.
 
Hoje meu celular apitou com várias mensagens de minha mãe, eram fotos do meu irmão nadando, uma das coisas que ele mais gosta além de pintar quadros, e jogar basquete. Na legenda ela colocou: “O presente de aniversário dele foi nadar! Será que o Chico está vivendo a crise dos 30? Risos!”. Não respondi, mas acredito que meu irmão não está muito preocupado com a idade que tem, ele apenas vive cada dia que lhe é oferecido. Ele, diferente de muitos que conheço, respeita o que sente, nunca faz o que não gosta, e rejeita até as roupas que minha mãe escolhe para ele vestir. Ele vive com o rótulo de “autista” e por isso não faz coisas que a maioria das pessoas fazem diariamente: não quer ganhar dinheiro, não rotula pessoas pela aparência, e não está preocupado com padrões, e há trinta anos ele coloca muito mais amor em nossas vidas.

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