Revelação

Por: Eny Miranda

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A poesia é universal. Habita os sítios mais diversos da vida. É beleza latente, é essência. E assim permaneceria se não fosse o poeta, que tem o dom de captá-la e oferecê-la à luz. Há poesia no mar, no céu, na lua... como há poesia também na areia e na pedra. Há poesia no cotidiano. Mas o mar, o céu, a lua e o cotidiano não são poemas por si mesmos. Toda a poesia neles contida, ainda que por muitos  percebida, só os poetas conseguem formalizar, no prodigioso sopro do verbo.
 
“A poesia é coisa de um sopro”, lê-se na Gramática de Dionísio, a mais antiga do Ocidente. Logo, poesia é vida, e o poeta é o seu criador. É do poeta o hálito - sopro-som ou sopro-traço - que anima, verbaliza um mar sereno ou revolto, uma pedra no caminho, uma lua cheia. O poeta colhe do cotidiano a poesia e nela sopra sua alma, para então apresentá-la - poema - aos olhos do mundo, colorida em cores, modulada em formas... cores e formas que, saliente-se, não são só as suas cores e as suas formas essenciais, mas também as dele, poeta, capaz de (re)criar, (re)inventar, (re)modelar o Céu e a Terra, as pessoas e as coisas; de revelar a Beleza no instante da criação, e cristalizar esse instante por toda a eternidade.
 
É, pois, do mundo e do âmago que a poesia se faz e se revela, sempre nova, ao sopro/poema de cada poeta. 
 
E porque é assim, poesia é também milagre: ao mesmo tempo, selo, marca, impressão digital e anímica - imagem - de criador e criatura. E é mistério, porque se apoia no enigma do instante eterno: a atribuição da alma pelo sopro da criação e sua apreensão pelo dizer poético. Mistério porque se forma pela metamorfose da palavra-ninfa, capaz de se transformar sempre, infinita, inesgotavelmente.

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