Goret vai ao Louvre

Por: Sônia Machiavelli

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Goret  conhece bem a Europa. Sei disso porque  me contou. Quando  viajava em  excursão, tive a honra de estar com ela em  alguns  lugares.  Um deles a Grécia. Ver sua  desenvoltura ao subir sozinha  os caminhos íngremes para a Acrópole; quase correndo em um daqueles  aclives  alvíssimos de Santorini; querendo chegar logo ao Oráculo de Delfos; caminhando em estrada de pedras sob 40 graus para conferir  o que deveria ter sido o estádio de Olímpia no século lll aC, -  tudo isso espelhava a grande alegria de viver que distingue essa pessoa especial, de sorriso meigo e eterno jeito de menina.  

Aliás, não apenas eu sentia essa  dádiva. O grupo aprendia todos os dias algo com Goret. Leveza,  bom humor, jogo de cintura, improvisação, sensibilidade. Até a sisuda guia Nina Romano, que pretendia nos contar em vinte dias vinte séculos de civilização, arte e cultura  helênicas, encantou-se com Goret, e por extensão, conosco, brasileiros. A tal ponto que  no meio da viagem já nos fazia relatos sobre sua vida. Goret tem também este dom, de comunicar junto com a alegria uma confiança. 
 
Agora ela vai (de novo) a  Paris. Como já contei,  é moça viajada- conhece quase toda a França, país que eu sei que  ama. Um dia, me descrevendo o Mont Saint Michel, ela o fez com tal emoção e veemência  que me convenceu:  meses depois eu fui lá ver aquela indescritível maravilha da natureza em convívio com o engenho humano, a fé, a persistência , o labor, a arte.
 
Esse tipo de arte, que também  traduz  labor, fé, persistência e engenho,  minha amiga vai mostrar aos franceses e aos milhares de turistas que visitam o Louvre, um dos três museus mais conhecidos  do mundo. Naquele espaço a que chamam Carrousel , exibirá seus trabalhos junto a outros 25 artistas brasileiros no mês de outubro.  Duas das telas selecionadas para a exposição já são conhecidas dentro e fora do país. Floral, acrílica, reproduzida em cartões, circula pela Suíça, Finlândia, Argentina.  Íris Rosa, pintada a óleo, é cartão de aniversário comercializado também  na Argentina. Ambos retratam flores, tema preferido da artista. No dia 21, Goret pintará para o público presente, com seus pés e sua boca, substitutos perfeitos para suas mãos que um acaso da genética fez atrofiadas. As obras serão doadas  ao fundo social do Carrousel. 
 
Só de pensar neste momento glorioso, eu me emociono. Fico como ela diz estar se sentindo: “muito  feliz!”  Penso na sua trajetória desde a infância, no amor de seus pais, na perseverança  de sua mãe, no carinho dos familiares e amigos com aquela menininha. Desafiando todos os diagnósticos e prognósticos, um dia sentiu que podia,  então gritou, desceu do colo da sua cuidadora e, apesar das  dores lancinantes, pôs os pés no chão e caminhou. Tinha cinco anos, nunca dera um passo, e  queria acompanhar a procissão do Divino. Seu vigoroso desejo de andar completou o milagre. E desde então Goret anda por toda parte, levando sua arte, falando de amor, infundindo esperança, restaurando forças alheias. É uma mulher inspiradora, que não se deixou abater pela adversidade, e só cresce no que faz. Em constante movimento, é convidada para palestras, participa de mostras, passeia, viaja, estuda, trabalha, pinta,  dança, nada, torna-se cada vez mais ativa nas redes sociais. Foram estas que ensejaram o convite de Celito Medeiros para a exposição no Louvre. Eles não se conheciam, mas pelas redes um foi atraído pela  arte da  outra  e vice-versa. Assim  foram se tecendo  admiração recíproca, amizade,  bem-querer.  Aceito o convite, Goret comunicou o fato à  Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (com sede na Suíça), da qual  faz parte. E a APBP ofereceu-se para custear o jantar de gala no dia 19,  no Hotel Georges V, um dos cinco estrelas da cidade-luz. Ali  Maria  Goret Chagas receberá a comenda  “Homens e Mulheres de Valor”. Que noite de cintilância há de ser esta!
 
Mas como Goret não consegue parar, antes de ir à França  vai lançar mais um livro em Franca.
 
Sim, porque além de artista plástica, é escritora. Depois de participar com textos em  publicações corporativas;  integrar uma Antologia de Escritores Brasileiros e outra de Autores de Língua Portuguesa;  escrever  duas histórias para crianças-“ A estrela de uma ponta” e “Era uma vez... uma garota de olhos encantados”, Goret estará em nossa praça principal lançando  no último dia deste agosto,  próxima quarta-feira, “Paraolímpico, o sonho fantástico de um herói”. Surfando na onda dos Jogos que começam no dia 7, a narradora  faz um relato  emocionado  sobre uma criança que perde a capacidade de andar, mas adquire outra: a de voar em seus sonhos, que chegam ao leitor em palavras e imagens encantadoras . Sobre esse assunto, Goret pode falar de cátedra. Ela é  Mestra  na arte da Superação. 

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