De bate-pronto

Por: Sônia Machiavelli

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Voltávamos lá de baixo, onde o colega de escola, Pedro, mora. Tínhamos ido levá-lo, como prometido à mãe do menino que o havia deixado em minha casa.  João, 6 anos recém completados, tentava equilibrar-se no patinete, presente de aniversário do Vaz.  Já tinha escurecido e conversávamos, enquanto ele no patinete, eu sobre meus próprios pés, vencíamos os aclives do condomínio. De vez em quando parávamos.  Ora porque ele caía do patinete, ora porque o fôlego me faltava. Eu estava gripada e rouca; ele, saudável e loquaz como sempre. 

A conversa flutuava, mas de repente se fixou nos dinossauros que tínhamos visto há pouco tempo numa exposição do Ribeirão Shopping. Como a irmã Júlia, João é um apaixonado pela vida antes do homem. Seguíamos nosso caminho para casa, ele me falando sobre o tamanho do Espinosaurus;  os hábitos do Bactrosaurus; as garras do Barosaurus; o ronco do Ceratosaurus; o nome do Drinker, que não terminava em saurus “- por que será, vovó”?
 
De vez em quando eu  o interrompia para observar o quanto as roupas dele estavam sujas. Havia brincado na areia debaixo da figueira onde seu pai e seu tio também tinham se divertido trinta anos atrás. Rolado na quadra de esportes, com o Pedro e outros meninos a quem acabara de conhecer. Se lambrecado com um baldinho de água misturada com terra, deixado ali por alguma criança. “- É de menina, vó, olha, é rosa e tem florzinhas”, ele observava. Eu assentia com a cabeça e com um resto de voz: “Deve ser de uma das meninas da Ana”. E assim subíamos, iniciando o contorno da pracinha, eu alertando que ao chegar em casa ele deveria ir direto para o banho, pois estava imundo, até na cabeça havia terra.
 
Foi quando aconteceu aquilo. Ele olhou para as luzes que de repente se acenderam no jardim da casa na frente da qual passávamos e parou surpreso.  É mesmo lindo de se ver o amplo jardim daquela casa, o maior do condomínio, bem cuidado e florido. E se torna ainda mais impactante à noite, quando a iluminação é acionada. João, que tem uma mãe que ama as flores, foi tocado pela beleza e estacou. Depois de um minuto parado e olhando, me pareceu que um “Eureka!” acendeu-se também na cabeça dele, junto com as luzes. Então ele disse: “- Mas  essa não é a casa da vovó Martha?’ E antes que eu respondesse: “- É sim, é a casa dela!” 
 
Como um raio, ele atravessou a rua com o patinete, o que me obrigou a correr atrás, alertando-o para o fato de que não deveria fazer mais aquilo, pois aquela era uma via transitável, por ali trafegavam carros e principalmente àquela hora de muito movimento era perigoso. Ele se virou para mim, depositou na calçada o patinete e disse:
 
_ Eu vou ver a vovó Martha. ( Martha, irmã do avô Ronaldo, tia-avó, portanto)
 
-De jeito nenhum. Está doido? Você está todo sujo! Ela acabou de se mudar, está tudo brilhando de novo. Vamos é  pra casa tomar banho!
 
- É só um pouquinho. Vou conversar com ela, vou ver se a ‘madinha’ tá aí.
 
- A ‘madinha’ não está; acho que ela viajou pra cuidar do pé quebrado.
 
- Está sim. Ali o carro dela. 
 
Olhei para o local que o dedo dele apontava. Ao lado da roseira branca da lateral estava mesmo o carro de Maira. Endureci o discurso.
 
- Vamos para casa. Você está muito sujo. Vai sujar os sofás da sua avó, vai sujar tudo o que tocar. Isso não é hora. 
 
_ Ah, mas eu quero entrar. 
 
_Não, você vai atrapalhar a vovó Martha, João. 
 
_ Não vou não. Já ouvi ela falar pra minha mãe que eu nunca atrapalho.
 
- É bondade dela. Nessa sujeira atrapalha sim. Olhe o seu tênis, todo embarreado. 
 
Argumentei de várias maneiras. Ele continuava irredutível ali na calçada.
 
Foi quando, cansada, e com aquele desânimo que toda gripe traz consigo, apelei para o motivo que, achava, seria irresistível para ele, mantido há algumas semanas em custosa dieta hipocalórica.
 
- João, escute. Olhe aqui, vamos pra casa. Enquanto você estiver tomando banho, vou fazer uma lanchinho delicioso para  nós.
 
  Como se eu tivesse dito uma barbaridade, ele colocou a mão direita  na cintura, afastou com o pé direito o patinete junto ao meio-fio e me fuzilou com o olhar. Aí disse escandindo as sílabas:
 
_ E você acha que eu vou trocar a visita pra uma pessoa da minha família por um lanchinho qualquer?
 
Dito isso, me deu as costas, subiu os lances de escada e tocou a campainha. 

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