Carta ao meu avô

Por: Isabel Fogaça

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Vovô,

Você sempre preferiu o tradicional, nunca gostou de regalias, não come sem feijão, prefere sua assinatura no papel e sua palavra como honra do que digitar ou passar um cartão de crédito. Eu que sempre fui muito admirada pelo que o senhor é, enganei-me quando pensei que havia admirado tudo que podia, sei que estou eufórica e que isso acaba misturando os demais sentimentos, além disso, o alívio deixa a alegria maior mas eu estou muito admirada e orgulhosa porque o senhor venceu o câncer.
 
Naquela tarde fria do meu aniversário, a vó deu a notícia que já esperávamos diante de seus sintomas predominantes: um tumor grande e teimoso alojado de maneira difícil de tratar. Tentaram me animar, diziam que as coisas aconteceriam como deveriam ser. Eu, que procuro força no ceticismo, e penso na maioria do tempo que somos nós que buscamos o que devemos ter, naquele dia eu acreditei fielmente que daquele obstáculo o que deveríamos buscar antes de qualquer coisa era a força interior. Rezei baixinho o dia todo, e pedi ao universo que trouxesse sua cura e sua felicidade. Perdi a conta de quantas vezes disse a mim mesma: “Meu maior presente é meu avô saudável”.
 
O senhor não sabe, mas antes do início de seu tratamento, em conta das longas viagens que deveria fazer de sua casa até o hospital, pensei na exaustão que sentiria. Cotei hotéis perto da clínica, pensando em seu conforto, em seu banho quente, e em seu café da manhã. Sei que nada é barato, e que quando se trata de São Paulo parece ainda mais impossível. Então, cogitei vender bolo na faculdade, e disparei emails a todos meus contatos enviando meu currículo pessoal para poder trabalhar nos dias que não estudava com o intuito de pagar o que você precisava, mas você é tão forte e tão determinado que conseguiu se locomover todos os dias até o hospital, sem precisar dormir fora de casa.
 
Vô querido, sua força e determinação é um exemplo que tenho sorte de ter. Repito a mim mesma diariamente que nunca vou deixar de fazer algo por medo, e que não vou me deixar cegar evitando aprender algo com uma situação ou com alguém. Como disse tantas vezes: minha alma ama e admira a sua. Obrigada por existir em meu caminho, por seu meu avô e por lutar tanto pela vida. Eu te amo por essa e pelas próximas que virão.
 
Com carinho,
Isabel

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