Mineirinho, by Clarice Lispector.

Por: Maria Luiza Salomão

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Nascida em Tchetchelnik, Ucrânia, Clarice Lispector se fez brasileira. Eu me faço mais e melhor brasileira, pelo amor à língua portuguesa-brasileira que ela inaugura e enriquece: um tipo absolutamente novo de escrita, em 1943,  saudada pelos grandes, no seu primeiro romance – Perto do Coração Selvagem.  Seus pais, judeus russos, aportaram em Maceió, alojaram-se em Recife, e, depois, vieram de navio para o Rio de Janeiro. Infância quase miserável, de imigrante.

Morreu em 1977, na véspera do seu aniversário, dez de dezembro, quando deveria completar por volta de 57 anos.  Nunca revelou a data exata de seu nascimento, nem no túmulo consta: vaidosa mulher. 

Ela se alinha com vanguardistas fora do Brasil, mas afirma nunca tê-los lido – Joyce ou Proust. Eu a alinharia, segundo meu discernimento, a um poeta, como penso que ela também é: Fernando Pessoa, outro grande para a nossa língua.   Clarice nunca se ateve aos fatos, mas à ressonância dos fatos nela, nas sensações evocadas, sensações que ela invoca nos seus textos, com sua linguagem única, pessoal.
 
Foi jornalista, chegou a fazer reportagens, para a Agência Nacional  e para A Noite. Cursou e se bacharelou em  Direito, porque diziam a ela que, por ser muito reivindicadora, deveria ser advogada. Para um amigo, revelou que se interessava por Direito Penal, e que tinha como missão reformar o sistema presidiário. Concluiu o curso “de pirraça”:  uma amiga dizia que ela não terminava nada, e ela resolveu provar o contrário. Em 1943, formou-se e casou-se com Maury Valente, diplomata.  
 
Quando lançou seu livro de estreia, em 1943, não pôde aproveitar a frisson que provocou no meio literário. Ganhou o prêmio de “o livro do ano”, e teve críticas muitíssimo favoráveis, mas esteve por muito tempo ausente fisicamente do Rio de Janeiro, ao seguir o marido diplomata, embora tivesse amigos que lançassem seus livros aqui,  e lhe escreviam, enviando as críticas feitas nos jornais da época. Há um manancial de cartas para as irmãs, que ela tanto amava, e para os amigos, Fernando Sabino, e outros também escritores. Ela se divorciou e voltou para Rio em 1959, depois de viver na Europa, em várias cidades, e nos EUA.  
 
Considerada enigmática, como pessoa, guardava silêncios nas entrevistas, e, na escrita, muitos a julgavam hermética. Diz Clarice, no livro póstumo, publicado pela amiga Olga Borelli “ sou complicada? Não, eu sou simples como Bach”.   
 
Clarice declarou, em sua última entrevista a Lerner, meses antes de morrer (disponível no youtube),  gostar particularmente de dois contos: “O ovo e a galinha”, e de “Mineirinho”.  “Mineirinho” foi recolhido inicialmente como crônica, em 1969.  Mas também foi considerado um conto.  
 
Mineirinho é um bandido, morto em 1962, com 13 tiros, no Rio de Janeiro, e deixado à beira de uma rodovia, com evidências de que não teria sido morto ali.   A imprensa descreveu, em diferentes versões, a morte de Mineirinho, considerado pela comunidade em que vivia como um “Robin Hood”. No seu enterro compareceram mais de 2.000 pessoas. 
 
O conto? a crônica?
 
No primeiro parágrafo há uma abertura para a singular forma de Clarice abordar a interrelação estreita entre identidade e alteridade.  
 
É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. 
 
A autora já se define implicada – não fala de Mineirinho, mas também se inclui. Chama-o de facínora, um dos adjetivos usados nos jornais, e fala da estranheza, ao se doer pela sua morte. Revela o motivo do texto: o ângulo que a interessa são os treze tiros que mataram o homem Mineirinho. 
 
Ângulo corajoso, sobretudo porque estava em plena Ditadura Militar, e a opressão policial era, sobretudo, violenta. 
 
Vejo um método em Clarice, que a guia no texto. Ela tem dúvidas e tateia. Ela destrincha planos de interpretação do “fato” (morte, assassinato de Mineirinho) – religião, justiça, ética, constituição da subjetividade. 
 
 Assunta a cozinheira, sabendo que irá se deparar com ângulo diverso dado pela imprensa.   E, de fato, a cozinheira defende Mineirinho, usando argumentos religiosos.  Há, então outra duplicidade de sentidos e de posições, em torno do “não matarás”, lei bíblica, lei dos homens, mas que não sanciona os 13 tiros dados em Mineirinho. E descreve o sentimento que une cozinheira e autora como a “compaixão da revolta”.  E vem o parágrafo inesquecível a descrever a sucessão de tiros que mostra, mais do que a morte de um criminoso, de um facínora, o desejo de matar daqueles que, supostamente, deveriam seguir a lei bíblica, a lei dos homens.  Clarice descreve sucessivamente, as sensações para cada tiro que alvejou Mineirinho, sendo que o último, o décimo terceiro, ela o sente como sendo a ela.  Ela, a autora,  é Mineirinho, ela quer ser Mineirinho.
 
Ela se vê acordada para o fato de se dar conta de que – quem a protege - supostamente, a polícia – é sancionada para uma violência, para a qual cerra os olhos, cega a consciência. Trata-se, agora de uma outra duplicidade – ela chama esse estado letárgico de não consciência de que uma violência foi cometida, crime de humanidade contra Mineirinho, de um estado de ser “sonsa essencial”.  Contraposto a esse estado, está o acordar para a “maldade organizada” que sanciona a morte de um homem, que não teve o amparo de uma lei humana. 
 
Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
 
Mineirinho é o erro da autora, e ela clama a responsabilidade dos leitores, a responsabilidade social para esse erro.  E é esse erro que pode rebentar com uma redoma de vidro de aparente inocência, que se julga capaz de fazer justiça, sem considerar a “maldade organizada”, que pode existir em cada ser humano, policial ou criminoso.
 
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça.
 
Essa é a violência – evitar o olhar para não entender – para que a casa não estremeça – violência dos chamados “sonsos essenciais”, como a autora chama aqueles que não querem ver, não querem pensar, não querem sentir.  O “furtivo” é violento. 
 
Aqui, a autora faz um contraponto entre dois tipos de violência, dois tipos de “justiça”.  
 
A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.
Ou seja, criamos o homem Mineirinho, pais de homens assim, e por que demonizá-lo, quando lhe é falto aquilo que nos falta ao assassiná-lo?
 
A autora usa uma metáfora radioativa – o grão de radium – como potencialmente destruidor, mas também grão de vida.  Nova duplicidade, necessária para que possamos entender a humanidade em cada um, a humanidade de Mineirinho. 
 
(...),o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.
 
A autora menciona um Deus com maiúscula e um deus com minúscula.  O deus que pode ser aquele criado para não se ter consciência da própria “maldade organizada” e justificar a impotência, na verdade, a covardia, de não lutarmos para o desenvolvimento da humanidade, ou salvaguarda da humanidade. 
 
É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
 
O que chamei método, no início, aqui se estrutura em carne do texto: é preciso não estar junto ao que se convenciona chamar de sociedade, e verificar que há algo além de uma lógica racional, que exclui a loucura, presente em todo homem.  Como diria Edgar Morin, o homem é demens e sapiens.  
 
A autora, enfim, explicita: 
 
(...) nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.´
 
Assim, a autora se acerca ao profundo desamparo a que estamos, todos, entregues, e ao medo-pavor, medo que reconhece no outro, a violência carregada dentro de si. 
 
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
 
Aqui a duplicidade maior: não se trata de um assassinato de um outro, mas de um assassinato duplo: matar o criminoso com as mesmas armas que ele usou no crime, transforma o criminoso em inocente; transforma o justiceiro em criminoso. 
 
E a autora conclui, com vasta sabedoria e alguma dose de esperança:  O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.  Terreno é palavra múltipla: terreno, para contrapor ao evanescente; terreno, para contrapor ao divino; terreno, para contrapor ao abstrato; terreno para dizer daquilo que pode ser substrato concreto para nova casa a ser edificada. 
 
Uma casa terrena, palavra-chão, onde se possa construir, talvez,  outra ordem de humanidade.  

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