Os Embalos da Jovem Guarda

Por: Sônia Machiavelli

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Ainda que a Jovem Guarda não tivesse cunho político, o que a opunha  de início à Bossa Nova e depois também às canções de protesto dos festivais, seu nome foi retirado de um texto de Lenin (1870-1924 ), o revolucionário comunista que exerceu papel decisivo na Revolução Russa de 1917: “O futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada.” Criativos marqueteiros compunham  a agência de publicidade Magaldi, Maia e Prosperi naqueles meados do século passado.

A Jovem Guarda, que se tornou conhecida a partir da metade dos anos 60,  não era apenas música. Era também moda, estética, comportamento, linguagem e  movimento cultural marcados pela  alegria e descontração. Foi um fenômeno midiático que contagiou milhões de jovens brasileiros de norte a sul, com especial concentração no eixo Rio-São Paulo. A gênese foi um programa de televisão exibido pela Rede Record a partir de 1965. Seus  integrantes mostravam explícita influência dos Beatles, do estilo  Elvis Presley, da interpretação de uma jovem cantora brasileira que morreria precocemente, Celly Campello. Da mistura desses elementos nasceu um tipo de música com  letras românticas, muita descontração e, não raro, bom humor. Era o iê-iê-iê, expressão cunhada a partir do título do filme dos Beatles, A hard day’s night, lançado no Brasil como Os reis do iê-iê-iê.  
 
Curiosamente, o programa surgiu da necessidade de preencher um vazio na grade do canal  de televisão, subitamente privado de transmissão ao vivo de partidas de futebol.  As jovens tardes  de domingo seriam comandadas por cantores que apenas despontavam na cena musical. Mas  Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderleia agradaram em cheio e  de imediato, surpreendendo os produtores. Dizem que nada tem tanta força como uma ideia  que emerge no instante certo. Naquele momento, quem não se ligava à bossa nova, ou não curtia os festivais, vivia num vácuo que foi preenchido pelo movimento da Jovem Guarda. O programa tornou-se extremamente popular, atraiu a atenção do público jovem mas também de outras faixas etárias. Sugeriu um novo jeito de cantar e de ser, impulsionou o lançamento de roupas e acessórios, enriqueceu  gravadoras. E enriqueceu a língua portuguesa ao fixar gírias que permaneceriam vivas por décadas: carango, coroa, pão, papo firme, mancada, maninha, pinta, pra frente, barra limpa, lelé da cuca e, entre tantas, “é uma brasa, mora.” 
 
Além dos artistas citados, que eram líderes e comandavam o programa, aos poucos  foram ganhando espaço Wanderlei Cardoso, Jerry Adriani, Vanusa, Martinha,  Eduardo Araújo e Silvinha, Jorge Ben Jor; Leno e Lílian, Demétrius, Ronnie Cord, Ronnie Von, Paulo Sérgio, Antonio Marcos, Rosemary, Sérgio Reis, Tim Maia, Sérgio Murilo, Waldirene, Edvaldo Braga, Odair José, Reginaldo Rossi, os Vips, o Trio Esperança... E as bandas! Os Incríveis, Golden Boys, The Fevers, Renato e seus Blue Caps... Anos depois, em inspirado momento revival, Roberto Carlos juntou toda a turma numa única música de grande sucesso pop: “Festa de Arromba.”  O programa na TV já não mais existia, terminara no pesado ano de 1968, quando Roberto Carlos decidiu buscar novo rumo para sua carreira. 
 
O desmantelamento do programa, porém, não significou a extinção do gênero que o sustentava,  pelo contrário. Contribuiu para que os artistas tomassem diferentes direções, obedecendo a demandas externas e, antes de tudo, aos seus próprios anseios por uma expressão mais independente. Roberto e Erasmo, irmãos siameses no início da carreira, se desgarraram e o primeiro construiu a sólida carreira que todos conhecemos. Wanderleia emplacou sucessos que lhe renderam apresentações em shows no Brasil e no Exterior. Houve os que se encaminharam para a música de temática sertaneja, como Sérgio Reis, ou  para a chamada música brega, como Edvaldo Braga e Odair José.  Jorge Ben encurtou o nome e  ampliou a inspiração sob a clave da brasilidade. Tim Maia se  firmou como  grande letrista e intérprete. Erasmo Carlos e Eduardo Araújo por bom tempo apostaram no rock. Neste longo tempo de percurso, a doença atingiu uma dezena desses artistas. A morte colheu vários. As drogas deram cabo de outros. Tragédias marcaram meia dúzia de forma indelével. E a incapacidade de reagir num  ambiente onde a concorrência tinha às vezes embutidos atos predatórios levou muitos ao ostracismo.
 
Mas os  três anos em  que o programa esteve no ar foram suficientes para armazenar na memória afetiva dos jovens uma coletânea de canções inesquecíveis, porque vinculadas às  emoções adolescentes que encontravam repercussão tanto nos ritmos como nas letras. As músicas ficaram impressas na lembrança e quando ouvidas hoje, depois de tanto tempo, ainda têm o condão de recambiar o ouvinte ao passado, em busca daqueles estados de espírito que são um apanágio dos verdes anos. 
 
Por isso, todas as manhãs de domingo,  únicas da semana em que fico em casa, ligo a Difusora e ouço religiosamente Os Embalos da Jovem Guarda, excelente programa do radialista Valdes Rodrigues. Volto no tempo com “Quero que vá tudo pro inferno”. Morro de rir com “Biquini de bolinha amarelinha”, “Pare o casamento”, “O Bom”.  Resgato histórias com “O Caderninho”, “Menina”, “Rua Augusta”. Sinto um frisson melodramático aos primeiros acordes de “Eu daria minha vida”. Em clima lúdico entro nas páginas de um gibi com “A festa do Bolinha”. 
 
O tempo rola indolente lá fora em espirais que levam a gente a olhar o céu. Na sala mergulho energizada nas músicas, sinto-me jovem de novo, posso até sair dançando porque o ritmo me comanda. Nesses momentos me dou conta de que nem sempre o passado passou de fato. E isso às vezes é bom. Porque como disse Proust, “às vezes estamos muito  dispostos a crer que o presente é o único estado possível das coisas”. E não é.
 

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