Volta às origens

Por: Angela Gasparetto

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Voltei hoje às minhas origens. Caminhei por suas estradas de terra e por suas ruínas antigas.

Entrei na mesma casa em que nasci, andei pelos eucaliptos onde brinquei , toquei nas árvores abandonadas e sentei-me nas pedras em frente a casa.

Ainda com o peito cheio de emoções, desde que voltei da visita, não conseguia escrever quase nada. Há um transbordamento de emoções e, na volta, vinha tecendo diversas crônicas.

Depois que cheguei aqui, só contemplo as fotos, mas o texto não sai.

Minha irmã mais velha que estava comigo não cansava de dizer como tudo mudou.

Para mim não mudou nada. Quase 50 anos depois, ainda subi com a mesma dificuldade dos cinco as escadas do "terreirão" de café.

E lá de cima, meu olhar voltou para o mesmo local te procurando, mãe. Eu não a encontrei, claro, hoje você mora no céu.

Mas ontem eu a achei em todos os lugares. Ontem você esteve comigo percorrendo a nossa casa abandonada, olhando o quintal em que brincávamos, as pedras e as árvores onde subíamos.

Então tudo continua igual. Suas pedras soturnas, suas estradas vermelhas, suas ruínas antigas, suas árvores loquazes. Tudo igual e tudo tão diferente. Apenas eu que ainda trago na memória o carimbo das lembranças eternas e da alegria esfuziante da infância.

Embora a casa tenha sido vilipendiada, eu a guardava pura na minha lembrança.

Caminhei dentro de suas salas repentinamente estreitas, entrei no quarto que dormíamos e caminhei lá fora no quintal em que costumávamos brincar.

As pedras enormes continuavam ainda no quintal, resquícios de um passado que não morreu, porque as pedras, como as nossas lembranças, são eternas.

Sua escada de pedra, seu quintal florido, seu símbolo de amor e aconchego. Eu era criança e aquela casa representou para mim uma fugaz felicidade antes das tempestades emocionais que viriam.

 

Quase 50 anos depois, lá estava eu contemplando-a. Possuída de um sentimento forte de reencontro e saudades. A terra vermelha sujava meus sapatos, mas principalmente sentia que esta terra também estava entranhada no meu coração.

Eu era aquilo ali para sempre. Mesmo se um dia a fazenda não existir mais, eu estarei para sempre entranhada naquele solo.

Na volta, vinha com o coração leve e a mente cheia.

Só conseguia ter o sentimento de dever cumprido. De como eu precisava voltar às minhas origens, de como aquele encontro me reconciliou comigo mesma.

Seguramente, devemos manter vivas em nossas mentes nossas lembranças mais felizes.

São elas que nos fazem mais fortes para as batalhas da vida.

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