Monstro

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

332959

Reconhecer similaridades fisionômicas entre as pessoas, parentes ou não, é esporte divertido. Ao olhar atentamente fotografias dos ancestrais, descobre-se de onde vem a inusual conformação  da orelha do neto; o incomum formato do nariz do sobrinho; o exagerado feitio da boca da filha. Já se dizia, quem puxa aos seus, não degenera: se há controvérsias quanto ao aspecto psicológico, quanto ao físico não cabe qualquer discussão.  Quer saber de onde vem esse ou aquele detalhe físico, mesmo em você? Procure nos álbuns de família. Por olhar atentamente as nuvens no céu, já houve  quem achasse pessoas, animais, rostos e até perfis  boiando no fundo azul do firmamento. Surpresa grande achar em uma das edições do  jornal Metro, distribuído gratuitamente duas vezes por dia aos passageiros que embarcam em quaisquer das linhas de metrô em Londres, o anúncio de disponibilidade para aluguel do imóvel, cuja foto está acima reproduzida.  De início não se percebe, mas algo parece incomodar quando os olhos se voltam uma, duas, três vezes, como a querer desvendar o motivo do súbito interesse, do reconhecimento que incomoda a memória, por não chegar de repente.  Subitamente, porém, os olhos descem na página do jornal e dá com fotografia pequena no pé da página, de vulto histórico, cuja morte ninguém chorou. A casa parece com a pessoa. Estranho, mas é verdade. Senão, veja: observe o telhado preto e irregular, parece topete de cabelo repartido do lado, preso com brilhantina sobre a testa. Sob ele, duas janelas simétricas. Sob a verga, a porta espremida, que lembra  bigodinho fino e estereotipado que cobre  boca fina e estreita.  No jornal, a foto de Hitler minimizada, serve apenas para comparação. Mas sem a foto, a memória das pessoas ajuda a reconhecer na casa, o arquétipo da criatura malévola e odiosa que foi o nazista. Uma casa que lembra o rosto do Hitler. Não é à toa que está vazia e talvez jamais seja alugada. A pergunta que fica sem resposta: terá sido mera coincidência? 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras