Fui

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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 — Vem – ela disse.

Meu coração captou o presente de intimidade, e minha ingenuidade obedeceu ao imperativo. Vestido de intenções brancas, meu ser deixou-se levar para o profundo de seus olhos negros, para o verde infinito que deveria ondear além da menina de seus olhos.
 
— Vem – ela disse.
 
Ouvi o presente de intimidade, e o meu espírito, obediente aos tons do imperativo, encaminhou-se para a varanda. Ali, recostado na rede – um pé suspenso, outro embalando o ninho – os meus braços côncavos se fizeram berço e esperaram as promessas sonoras que me acalantariam desde a remota infância.
 
— Vem – ela disse.
 
E o presente de intimidade soava tênue como nuvem, enquanto o imperativo de suas mãos abertas, convidativas me acordavam possibilidades desde muito descartadas já, ao longo de tantos e tão tortuosos trajetos.
 
— Vem – ela disse.
 
E o presente de intimidade sumia opaco, insípido e insosso à chegada dos odores imperativos do seu corpo, convocando-me para edens. Neles eu poderia provar de menus exóticos e sorver iguarias existentes no Olimpo só.
 
— Vem – ela disse.
 
E eu fui.
 
Mas, além da menina dos olhos, havia era mar tempestuoso e negrume no céu. Minha bússola não localizou farol, e o meu barco de papel, arremessado de encontro a arrecifes, foi a pique. O marujo restou náufrago em praia deserta, nu até das intenções de Índias alcançar.
 
Fui.
 
Mas, eram de sereia os cantos e os acordes que voavam pela casa, iluminavam a varanda, como se vindos do céu. Quando um grampo se soltou do tronco, e corpo e sonho perderam o amparo, estatelaram-se na tábua seca que vestia o chão, toda a música se calou. Assustado com o agudo do choque, o anjo pianista se foi, levando consigo o anjo da guarda.
 
Fui.
 
Mas, as mãos sem rumo apontaram-me caminhos desnorteados. A viagem se fez comprida porque norte e sentido estavam confusos, perdidos em meio a tantas encruzilhadas e nenhum Cruzeiro do Sul, nenhuma estrela guia. Sentido e norte sumiram em caminhos opostos, ambos buscando estrada de volta.
 
Fui.
 
Mas, o calor alcançado era hálito de inverno, sumia-se na névoa. O frio, feito criança, apagou o Olimpo de minha lousa.
 
Fui.
 
Agora, náufrago no meu quarto, tateio, busco meu violão. Encontro-o. 
 
Resta-lhe corda única. 
 
É o bastante.
 
Uma canção há de brotar dos escombros.

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