indizível

Por: Luiz Cruz de Oliveira

333599

Ao desembarcar em meu peito, a mulher semeou, despercebida, todos os estímulos.

Então, embora temeroso do inédito, subi conveses, levantei âncoras, soltei velas, cortei mares nunca antes desvirginados. 
 
Convivendo com os nautas primeiros, trilhei também a primeira estrada para as Índias e o primeiro caminho para as Américas. Degredado junto, lutei na mesma trincheira de Camões. Assim, saiu do mesmo trabuco, a pólvora que nos aleijou a ambos.
 
Degredado uma segunda vez, pisei pegadas do vate desde as praias lusitanas até as vielas de Goa. Em Macau, cuidei também de bens de defuntos e ausentes. Cuidei mal (a lembrança da mulher me distraía), por isso fui acusado de ímprobo, fui enviado a além-mares, a julgamento. 
Na mesma caravela, viajamos o bardo e eu, e vivemos o mesmo naufrágio. Mas, ao contrário do poeta, atrapalhei-me nas lágrimas, e dezenas de originais se molharam, sumiram, perderam-se na água salgada. 
 
Em terra, também convidei os amigos para um banquete de trovas. E, num quartinho repleto de solidão, morri desacompanhado de qualquer escravo.
 
Apesar de todas as viagens, todas as descobertas, todas as dores, tudo ficou por dizer.
 
Então, arriei as velas da nau lírica e fui explorar a capitania do Simbolismo. Queria cultivar aliterações e assonâncias. Queria colher sonoridades. Nefelibata, cavalgaria o tênue e o vago. Colheria estrelas, e minhas mãos em concha, espargindo tesouros sobre a mulher, lhe banharia corpo e alma. Para tanto fui pisar as pedras das ladeiras de Vila Viçosa, de Lisboa, de Leiria, de Coimbra e de cada aldeia escondida lá longe, Trás os Montes. 
 
Desejando espantar e espancar tristezas e dúvidas, todo o passeio se fez de mão dada com uma flor – Florbela e perfumada. Enquanto caminhava, eu afrontava incertezas. Mas era a custo que continha a lágrima, uma vez que o vento e a pedra que vestiam a solidão da poetisa se molhavam da chuva do desespero.
 
Encharcados, pisávamos pedras molhadas e escorregadias, enquanto caminhávamos na esperança vã de que, lá embaixo, ao pé da ladeira, houvesse um metro de reta, um poucochinho de equilíbrio.
 
No entanto, todas as subidas, todas as descidas, todas as lições do caminhar, tudo ficou por dizer. 
 
Então, retornei ao meu rincão. 
 
Aqui, sentado no braço do violão de Vinícius, comovido, ouvi queixas, bebi desalentos e vivi esperanças, numa mistura que embriaga e alimenta.
 
Embriagado de canção e alimentado de poesia e vida, só almejava o desenho de pegadas no silêncio e na areia. 
 
Todo o repertório, todas as antologias, tudo resultou inútil.
 
Em tentativa derradeira, viajei só. Subi à lua e a Marte. Aportei na Ursa Maior e numa extremidade do Cruzeiro do Sul. Em cada enseada, recolhi uma concha para a mulher.
O desconhecido, o exótico, o distante, o indefinível, tudo resultou inútil.
 
Ainda mergulhei em compêndios e tratados. Colhi, em árvores diferentes, diferentes teorias que explicam, que ensinam o sucesso dos amantes, dos cantores.
 
Inútil, tudo.
 
Escrevi-lhe versos, poemas, um livro inteiro, desenhando em letras e vocábulos o coração do meu coração.
 
Inútil, tudo. 
 
A mulher ouviu outras vozes e se foi.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras