O cantor

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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O seu sonho encobria a poeira daqueles caminhos rudes que o levavam, em sua primeira viagem, à cidade grande. A carreira de cantor, o sucesso, a fama e o brilho povoavam sua mente desde que aprendera a gostar de cantar, no coro da igreja, daquela pequenina cidade, onde morava com seus pais. O pároco o incentivava, percebendo nele uma voz diferenciada, potente e profundamente harmoniosa. Com a ajuda dos paroquianos, encontrava-se ali, rumo ao futuro.

Carlinhos, conhecido no meio artístico como Charles, cantava em casa de shows, clubes, eventos e tornara-se famoso. Tinha muitos amigos e fãs, até que uma delas o atraiu, demasiadamente, e isto foi o seu fracasso. Descuidou-se da carreira e dos compromissos e, em pouco tempo, perdeu tudo, menos um amigo que o encaminhou a novo trabalho, junto a um grande complexo hoteleiro, onde apresentar-se-ia como cantor de uma pequena banda.Uma nova história teve início para ele. Cantava à noite, em um palco grandioso, iluminado e separado por cortinas de veludo vermelho, construído no meio de um bosque de árvores centenárias e preciosas. Ao lado, um pequeno rio de águas quentes transitava com força, em leito pedregoso, batendo nas pedras, ressoando fortemente e emanando um vapor que subia de suas entranhas.
 
Apaixonara-se pelo local onde moraria o resto de sua vida. Totalmente ajardinado, de beleza estonteante, impecavelmente organizado, em meio à natureza quase selvagem. Pela manhã, seus parceiros de voz, os pássaros, das mais variadas espécies, entoavam seus cantos, nos galhos do arvoredo, mirando o céu de azul translúcido e continuavam até ao entardecer quando despediam-se em sinfonia, saudando o por- do- sol. Quem continuava a cantoria e saudava a lua e o luzir das estrelas era Carlinhos com seu canto mavioso. Apresentava-se, sempre, alegre, afinado e soltava sua voz inebriante, encantando a todos que o assistiam. E os aplausos surgiam espontâneos, o carinho dos presentes era uma retribuição aos momentos de emoção vividos, numa atmosfera de sonho e de prazer.
 
Há mais de vinte anos ele está no mesmo lugar. Levou seus velhos pais para morar com ele e sua vida resume –se em cantar, todas as noites, para os hóspedes que se revezam, e, anos após anos, encontram-no lá, com a mesma energia, o mesmo entusiasmo, feliz em cantar, pois o seu canto é a sua vida! 

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