Gastando o Latim

Por: Sônia Machiavelli

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O latim pertence à grande família das línguas indo-europeias. Foi a partir dele, por extenso período o idioma oficial do grande império romano, que se  formaram  português, italiano, francês, espanhol e romeno. Ao se difundir, com o avanço dos conquistadores, mesclou-se à língua dos povos dominados, transformou-se  paulatinamente, subdividiu-se  no latim vulgar.  O processo de evolução seria completado quando a  ruína de Roma levou à fragmentação que conferiu aos falares, então já muito diversificados,  características de idiomas próprios.

O Império Romano do Ocidente  ruiu  definitivamente no século V por causa das invasões dos bárbaros, assim chamados pelos gregos que  não entendiam a língua dos povos do norte. Sua fala lhes parecia cheia de sons do tipo bar-bar, o que deu origem à palavra  bárbaro. Ela passou a designar automaticamente o estrangeiro. Entre os romanos, eram barbarus  aqueles que não falavam latim, não seguiam as leis do império, não aceitavam a cultura local. 
 
O processo de entrada dos bárbaros ocorreu de forma gradual. Inicialmente, algumas tribos foram até consideradas federadas ao Império, após a consolidação de práticas comerciais. Entretanto, a partir do final do século IV, as invasões intensificaram-se. Hunos, vândalos, godos, visigodos, ostrogodos, hérulos, francos, lombardos e anglo-saxões  adentraram as fronteiras romanas e se impuseram de forma violenta. Em 476, um líder germânico, Odoacro, comandou o saque a Roma, destronando o último imperador, Rômulo Augusto, e dividindo o tempo histórico em antes e depois da queda do Império Romano do Ocidente.  
 
Se a oralidade na vasta região invadida ganhou a partir daí outros contornos e identidades, o conhecimento erudito continuou repousando nas preciosas bibliotecas onde os livros tinham o latim clássico como língua. Outro fator preponderante para sua sobrevivência foi o Cristianismo, pela via de Constantino, imperador que definiu regras e  normas eclesiásticas no Concílio de Niceia. Sob este aspecto, basta lembrar que as missas foram celebradas em latim até meados do século passado. O Direito, que teria como  parâmetro o romano quando os antigos invasores necessitaram organizar códigos de leis, também era grafado em latim. Assim, uma das línguas basilares da cultura ocidental  continuou influenciando de forma decisiva  o registro do conhecimento até hoje.
 
 Para a geração nascida no pós-guerra, na qual me incluo, o latim era matéria da grade curricular no que hoje corresponde ao ensino médio. Dou meu testemunho, como aluna de Sudário Ferreira e Valeriano Gomes do Nascimento, que nos ensinavam a traduzir pequenos textos de Metamorfoses (de Ovídio) e curtas fábulas repletas de sabedoria. Talvez por isso  pense  que alguma intimidade com a língua latina seria interessante para professores, acadêmicos, pesquisadores, escritores e todos os que se interessam de forma genuína pelo saber.  Ligado à cultura de praticamente todos os povos ocidentais, presente em textos jurídicos, científicos, botânicos, teológicos, culinários e  filosóficos, o latim ajuda a compreender a civilização à  qual pertencemos. 
 
É claro que não sugiro que se volte a ter aulas de latim. Se as de português forem encaradas com seriedade já será de bom tamanho. Mas trago a quem se interessa  pelo assunto um título novo no mercado editorial : Dicionário Latim Português, da Edipro, com mais de 24 mil entradas acompanhadas de definição e classificação gramatical. Seu autor é Alexandre Hasegawa, professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP.
 
Em tempos de Internet, com fronteiras derrubadas,  a obra  é muito mais precisa (quanto a expressões e  palavras) para tradução rápida  do que o serviço  do Google, que  tantas vezes nos devolve frases ininteligíveis. Na alentada pesquisa, Hasegawa, também coordenador de grupo de estudos sobre poética e tradução de textos latinos e gregos,  agrada  não somente  quem necessita de consulta rápida, clara e objetiva, mas também  estudantes e interessados no aprofundamento dos clássicos latinos.  Pode ainda despertar a curiosidade de adeptos das tatuagens. No quesito, vejam as mais usadas pelos que adoram tattoos:  Amor vincit omina (O amor vence tudo). Carpe diem (Aproveite o dia). Ama et quod vis fac (Ame e faça o que quiser). Alea jacta est (A sorte está lançada). Veni, vidi, vici (Vim, vi, venci). Ad astra per aspera  ( Aos astros  por  caminhos ásperos). Cogito, ergo sum (Penso, logo existo). Alis volat propiis (Voe com as próprias asas). Memento vivere (Lembra-te de viver).
 
De minha parte, se um dia fizesse uma, escolheria a frase que atribuem a Cícero, famoso orador romano: Praeterita cicatrices meae realis recordarer. Porque eu acho, de fato, que  especialmente as cicatrizes nos  lembram que o passado é  parte  inalienável de toda biografia.

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