DE VOLTA À CASA VELHA

Por: Angela Gasparetto

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Abriu o armário à procura do exame feito em 2008. Nesta busca insana, pois havia marcado médico no dia seguinte, ela começou a revirar coisas, roupas antigas, cartões de Natal, flores recebidas, lembranças de uma vida.

Nada do exame, a cada hora parava estupefata ao encontrar algumas roupas antigas. Aquele vestido de 2005! Era tão magra pensava! Como podia entrar nele? Admirava-se.

E o de 1991? Este era mais justo que a justiça dos Deuses gregos! E curto! Ah, mas tinha pernas, e que pernas! Sorria intimamente!

Há tempos vem pensando que não se pode mudar a sua origem. A busca desenfreada para apagá-la, apagar as dores da infância e da adolescência é paliativa, porque descobriu e muito tarde, que a sua origem você não muda. Aliás, você pode até perder a sua essência, tentando mudá-la.

De volta à casa velha, tem sentido horror ao perceber a hostilidade das pessoas. O egoísmo declarado. Principalmente de quem ela ama. E a despeito de ver, ela continua amando-os.

Faz um balanço do que sobrou. Tenta juntar o resultado de sua vida e senta agora no meio do quarto. Você e seus escritores mortos. Você e sua vida inventada. Você a pseudo-inteligente da família.

Abre os livros antigos. Machado de Assis sempre está lá. "Helena" foi o primeiro livro de adultos que ela leu e tinha só doze anos. Sorri intimamente. Não entendia o drama apresentado, mas já apreciou o estilo utilizado.

Nos seus pés está agora um amontoado de vestidos. Olha os cartões recebidos há décadas. Olha os livros espalhados que são seus tesouros.

Nada do exame. Não terá como confrontar o atual com o antigo. As crises de enxaqueca estão cada vez mais freqüentes. São emocionais, assegura sua terapeuta. Ou uma doença fatídica como ela teme?

Espera que não! Suspira.

Levanta-se e recolhe os vestidos como cristais muito frágeis. Este vermelho usou na festa de 2006, pensa. “E num repente de revolta, decreta:” Vou vendê-los todos no brechó da esquina e arrecadar uma boa “grana”! Pensa entre decidida e com um sorriso meio maquiavélico.

Vou vendê-los todos. – repete mentalmente. Ah, vou vender os sapatos! Vou vender os chapéus, as calças listradas à anos 70 e aquele casaco que nunca usei, porque nunca fui à Europa para usar.


 


 


 

É isto, dar de cara com sua origem! É, é esta que eu sou! Morando na casa velha, com pouco dinheiro e procurando um exame perdido.

Mas quando se levanta com os vestidos nos braços, de repente cai no emaranhado de roupas um bilhete sem assinatura.

Ela o pega e lê: "Sua origem te acompanha. Mas seus sonhos nunca estão à venda. Somente você poderá realizá-los. Somente você poderá construir novos. Basta acreditar e começar tudo de novo, com novos tesouros agora escolhidos.”

Ela fica parada no quarto segurando os vestidos. Lágrimas de alegria brotam dos seus olhos. Quando se mira no espelho grande, aquele comprado também para grandes ocasiões, começa a sorrir.

É isto. Nada de apagar sua origem e sim aceitá-la. Nada de vender seus sonhos, estes são apenas vestidos velhos, já os sonhos agora terão que serem novos. Nada de se preocupar com doenças possíveis. E nada de agir no estilo camicase.

E sim, acreditar em um recomeço, agora com novos tesouros, tesouros reais de auto-estima e conhecimento que só são adquirimos com as perdas e ganhos, advindos da estrada que escolhemos trilhar.

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