De pé, a pé, sobre os pés, aos pés...

Por: Maria Luiza Salomão

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Do pé à cabeça foi um zás!  Estava olhando gentes a caminhar, quando me peguei pensando na beleza que são os pés, como eles nos sustentam? Como, tão pequenos, são a base para missão constante, complexa - carregar esqueleto, músculos, gordura, cérebro?  Como, em contato com chão sujo, encerrados em sapatos rústicos e apertados, se mantêm saudáveis? Que grande poesia, o par, coordenado, simétrico, compassado.  Dedos móveis para outras funções. 

Pés para que te quero? 
 
Pesquisei no dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo: a palavra pé está classificada em muitas categorias. 
 
Despertou-me as expressões interessantes, tendo os pés como eixo, na fala coloquial, figurada. Pé de valsa (exímio dançarino), pé de vento, pé de moleque, pé de pato (nadadeira), pé de anjo (pé grande), pé de atleta (com micose), pé de galinha (rugas), pé de chumbo (que não sai do lugar) . Todas sem hífen, na nova ortografia. Pé-de-meia (poupança), pé-de-cabra, finca-pé (com hífen). Rodapé, buscapé.  Com significados: pé na tábua, para andar depressa! Pé de alferes – ato de namorar, cortejar (não conhecia essa antiga expressão...). Pé de boi – trabalhador, esforçado. E ainda: dar pé (ser possível, ser alcançável), com o pé direito (entrar certo, entrar bem), pé na bunda (ser rejeitado, ser demitido).
 
Em outra cultura, já foram torturados, pés de chinesa, pés de lótus, deformados, castrados, para servir à beleza da época. Como nossos scarpins de salto-agulha, terríveis de se equilibrar em cima...Em nome da beleza...da cultura da época...Pés também são culturais – pés de bailarina – como sofrem!        
 
Circunstância – em que pé estou agora? 
 
Posição – qual o pé em que me situo?
 
Origem – qual o pé que  engendrou, gestou, o que ora se sustenta?
 
Dimensão – até onde, que tamanho, extensão,  quantos pés...
 
Baixeza – até onde rastejo, fico aos pés, beijo os pés de...
 
Base – apoio, fundamento, em que pé me planto?
 
Suporte – qual a ossatura, o arrimo, o alicerce, a sola, o pé da coisa?
 
Pé –parte do corpo, chanca, canastra, pesunho, prancha, patola, toesa. 
 
Poesia  - ritmo, verso de pé quebrado,  pé dáctilo, pé espondeu.
 
Quanta coisa dá no pé-palavra, quantas palavras cabem no pé de tudo. Da cabeça ao pé, do pé à cabeça, o que está entre o chão e o corpo inteiro, que chamamos eu, nosso delimitado corpo. Pé ante pé, digo baixinho: os pés são demaissss. Há que ter gratidão pelo que suportam,  dão base, dimensão, medida, altura e profundidade. E plantam, posicionam, enfim, delimitam circunstâncias, e definem permanências. 
 
Pé é ritmo, é samba no pé, é pé na bola.  
 
Para frente, para trás, para o lado, trança pés, troca pés, em um só pé. Pé uma baita poesia. 
Caminhemos, pés alados como Hermes, Mercúrio, mensageiro.  Rápidos como o pensamento, densos como sentimentos: pés, para que te quero?  

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