Isso pode servir

Por: Isabel Fogaça

334951

Quando eu ainda estava cursando a graduação tive que escrever um relatório muito importante. Passei dias trabalhando arduamente e colocando tudo que eu havia aprendido num pedaço de papel cheio de regras, formalidades e normas da ABNT. Quando a professora que cuidava daquilo pegou meu trabalho para ler, respondeu com muita frieza: “Isso não serve para nada”. 

Naquele momento eu não compreendi, apenas chorei como um bebê. E toda vez que eu via a tal professora, sentia meu coração cozinhar lentamente numa panela de pressão como um pedaço de carne suína enrolada num barbante, e novamente era tomada pela angústia inicial. Minha mãe ficou muito nervosa, meus amigos e colegas não entendiam as palavras duras da professora em meu relatório denominado inútil. 
 
Passei dois anos tentando digerir esta situação, algumas vezes eu me lembrava da frase no meio da noite e voltava mentalmente para o relatório tentando descobrir o que eu havia feito de tão errado, qual era a minha interpretação vergonhosa das obras que eu havia lido atentamente, mas que me causavam tanta vergonha e desconforto; então, eu pensava que ninguém deveria sentir aquilo que me atacava desde que servisse para crescer.
 
Certa ou não, respondi minha angústia com vibrações positivas à impaciência da professora. E aí, quando finalmente me senti em paz com o assunto, a frase voltou a passar pela minha cabeça, tanto tempo depois. Mas hoje com um peso diferente. Quando eu era criança meu avô tinha uma enorme caixa de ferramentas, dela saía martelo, massa de rejunte, azulejo quebrado, sementes e molas de relógio. O vô tirava tudo da caixa, e eu indagava sempre com a mesma insatisfação: “Vô, se essas coisas estão quebradas porque o senhor está guardando?”.
 
E ele respondia da mesma maneira: “Eu guardo porque isso tudo pode servir para alguma coisa um dia”. E ele fazia aquela fala acontecer, quando havia uma falha no azulejo, era o pedaço quebrado que dava um jeito; quando a horta vingava lindamente, como ele gostava de dizer, eram as sementes velhas que estavam fazendo acontecer; quando o prego não era sustentado apenas com a concha de feijão, era o martelo velho que colocava o danado para dentro da parede.
 
Hoje molho minha garganta com um gole de chá que fiz para dormir, e sinto a leveza em escrever que nada nessa vida é inútil, mesmo que não seja tão evidente: tudo serve para alguma coisa.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras