Réu (in) Confesso

Por: Sônia Machiavelli

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Réu (in) Confesso, de Márcio Nogueira,da Editora Usina do Livro, lançado recentemente em Belo Horizonte e Passos, é um livro sobre pobreza, ignorância, racismo, injustiça e três crimes que fazem repensar um Brasil que sobrevive nas periferias, nos bolsões de miséria, nos rincões  onde a vida vale pouco. Por ali, detentores de poder, oriundos de regiões urbanas mais privilegiadas, conseguem usar a mão de terceiros para destruir o que estiver atravancando seus caminhos. O autor, Márcio Nogueira, mora em Belo Horizonte, tem formação jurídica, é empresário e já atuou como administrador público. Seu gosto pela literatura é antigo, se manifestou desde cedo em leituras essenciais à sua formação e  agora lhe permite publicar este título que tem tudo para ser o filão de outros que certamente hão de vir.

Num cenário extremamente depauperado, onde sobreviver pede esforço físico e mental, disposição para a luta e tolerância diante das adversidades, além de doses oceânicas de fé em um  Deus  onipresente que não desampara quem nele crê, um jovem negro chamado Donizete é acusado de matar seu amigo apelidado Cabecinha, ambos empregados como boias frias na indústria canavieira. Narrado em terceira pessoa, o relato bem conduzido, com  estilo claro marcado por frases de impacto crítico e reflexivo,  apresenta os dois personagens já nas primeiras  linhas. Na boca de ambos o autor  coloca frases seminais do suspense que caracteriza o gênero policial: “- Eu não vou! Não vou de jeito nenhum!” “-Ninguém vai matar ninguém não! Quem está falando em matar?” 
 
A linha policialesca, que visa a responder à pergunta básica imanente a este tipo de  narrativa (Quem matou?), desencadeia no espírito do leitor várias indagações. A questão da autoria do crime segue intercalada pela prisão do suspeito, pelo sofrimento de sua mãe analfabeta mas lúcida, pela  reação dos irmãos amorosos mas ainda  crianças. Junte-se a isso a indiferença da pequena comunidade pela morte brutal do cortador de cana. E os percalços da família para, num primeiro momento, conseguir falar com o acusado e, num segundo instante, buscar ajuda para entender o que se passa. O cenário está pronto para inserir a figura do  advogado, parente de parentes da mãe aflita. Ele  assume a defesa do moço que de antemão sabemos ser inocente graças às pistas introduzidas paulatinamente pelo narrador onisciente. Mas onde estaria então o mote detetivesco, o plot  da intriga, o mistério que estimula o leitor a avançar pelas páginas perquirindo o leit motiv que sustenta a obra? Ele repousa em algo que só o acusado sabe, mas por alguma razão de todos  desconhecida não pode ser revelado. Será num momento de grande sofrimento que esta verdade virá à tona, iluminando a segunda parte da história, a que se ergue no tribunal do júri.
 
Compondo metade da obra, a sessão do júri que julga Donizete  adensa a história num ritmo crescente e até faz lembrar em alguns instantes o premiado romance norte-americano O sol é para todos ( no original, To kill a mockingbird), um clássico de histórias de tribunal, da ficcionista Happer Lee. No livro, que virou filme e até hoje é lido pelos adolescentes nas escolas norte-americanas, o ínclito advogado Atticus Finch defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos sul racista dos Estados Unidos  dos anos 1930. No caso de Réu (in) Confesso o crime é outro: Cabecinha, a quem o narrador se refere como aquele que “passou pela vida sem que a vida passasse por ele”, foi morto de forma cruel, dentro de seu barraco, sem motivo aparente, e o único indício que leva à suspeição do amigo Donizete é o fato de que eles tinham sido vistos juntos horas antes da descoberta do cadáver. 
 
O processo criminal é alvo da crítica do defensor, explícito alter ego do autor. Na peça há  falhas visíveis, erros de interpretação, má vontade para com o réu, abuso de autoridade, desleixo, desconsideração, até mesmo indiferença pela ampla defesa, direito garantido pela Lei. Contra tudo isso lutará o ético advogado, que respeitando a promessa feita ao seu cliente, se manterá calado sobre a prova evidente de sua inocência, até que o próprio a revele.
 
Vai se enganar o  leitor se pensar que a história termina por aí, com a absolvição do réu, apesar da acusação pesada do promotor, que, sem atentar para as circunstâncias, a todo  momento lembrará que Donizete confessara o crime- e daí a sacada do autor para o título, Réu (in) Confesso, um toque de humor inteligente com as palavras. Quando pensamos que o ponto final foi colocado no capítulo XX, o epílogo de onze linhas no seguinte abrirá   nova janela sobre a realidade e nos convidará a  voltar ao começo do texto, quando no segundo capítulo o leitor é informado de que “Donizete era um jovem negro, de pele fina, estatura baixa, imberbe, aparentando cerca de vinte anos, forte pra os padrões de uma pessoa criada em família pobre e castigado pelo insano trabalho na lavoura de cana de açúcar.”
 
 O final  fechado em círculo na linha do discurso, que  remete ao início do livro no que diz respeito à descrição do protagonista, não tem correspondência  no plano da  narrativa, que se oferece aberta  a múltiplas especulações. O que aparentava estar concluído no microcosmo, é apenas uma ilusão diante do macrocosmo. A decisão do autor define o gênero como novela (e não conto) e nos permite antever a continuidade da história, que tem fortes tons de crítica social a permear todos os capítulos. 

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