Rotina

Por: Maria Luiza Salomão

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Será que rotina vem de rota?  Examinava a minha rota rotineira casa-consultório outro dia.  Saio cedo de casa, quando os “dedos róseos da aurora” estão presentes no azul pálido do céu.  Ainda há cantos trançados de passarinhos nas saudações do novo dia. Como falam os passarinhos ao findar e ao raiar o dia... 

Somente na Itália ouvi passarinhos à noite, escondidos nas árvores. Aqui, passarinhos brasileiros emudecem na escuridão noturna.  
 
Nesse horário madrugador não encontro aquele senhor, que parece não enxergar nada, e tem pernas muito finas, atrofiadas, e muita dificuldade ao caminhar. Ele se posta ali, na esquina do farol de três fases mais demorado que conheço - entroncamento da Avenida Major Nicácio e da Elisa Verzola Gosuen. O senhor ganha tantas moedas que apareceu com uma caixa de papelão para as doações. Há algo nele, não somente as limitações físicas, que dispõe as pessoas a ajudá-lo, ele nada fala, quase nada pede. Fica ali, à espera. Hoje eu o vi com uma bengala: suas roupas estão mais limpas. Costumava ter roupa muito suja e rasgada. 
 
Um dia, eu que não gosto de dar esmolas, parei para dar uma nota graúda para ele. Ele me perguntou, em voz grave, no corpo magro e negro: é dois reais? Disse a ele o valor.  Ele assustou, mas agradeceu modestamente. 
 
Desejo forte, de menina, de contribuir com o mundo à volta. A rotina de gente grande, racional, que pensa muito e faz pouco, é muito chata. De vez em quando, cedo aos impulsos brutos e abruptos, dito infantis.  
 
Não é possível mudar o mundo. Nem me mudar é uma tarefa fácil ou que consigo levar a cabo. Meus pacientes também sabem como é difícil e o tempo que leva, mesmo querendo muito, mudar alguma coisa na gente. Acredito em gestos e ações pequenas, acredito em tijolinhos que se combinem e assentem para construir algo novo. 
 
Um psicanalista que gosto muito, Winnicott, dizia que era preciso achar o “gesto espontâneo”. Gesto espontâneo não é rotineiro. É desvio de rota. 
 
Pois bem, depois de meia dúzia de décadas, creio que sou uma adepta ao desvio de rotas. Faz muito bem para a alma, muito lenta, tartaruguenta, e que agora, aceita os breques da vida, da experiência, do corpo. Tenho maior e melhor disposição para a lentidão. 
 
Para viver bem e intensamente é preciso ser amigo da lentidão – no falar, no pensar, no sentir longamente e, para tanto, a rotina que se desarranje. 
 
O meu concerto final está apenas nos ensaios...

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