Infância não são só de casas de boneca

Por: Isabel Fogaça

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Quando meu irmão era pequeno e eu menor ainda nós morávamos bem distante do centro da cidade. Às vezes minha mãe precisava viajar em conta dos compromissos com o trabalho ou dos estudos. Enquanto meu avô viajava e não podia cuidar de nós, minha mãe levava a gente para dormir na casa da Maria Luiza.

A Maria Luiza, ou Malu, é prima e melhor amiga de infância de minha mãe. Desde que eu era criança que ela tem uma das casas mais bonitas da cidade (não é à toa que hoje é uma pousada). Tinha grandiosos lustres, os colchões eram encapados com uma roupa de cama macia e  bordada cuidadosamente; os armários eram imensos e impossíveis de serem atingidos por crianças, lotados de louça bonita e potes cheios de comidas separadas por cor.
 
Eu odiava quando minha mãe tinha que viajar, mas eu amava ficar na casa da Maria Luiza. Ela é o tipo de pessoa que conversa com crianças de igual pra igual, sabe?! Adorada por todo o mundo diante de sua simplicidade: "Ou! Onde cê tá indo? Entra aqui pra tomar um cafezim!" Ela grita assim até hoje quando avista minha mãe na rua. Além de tudo isso, a Malu sempre foi uma das maiores fotógrafas da cidade. Então, quando eu era pequena, gostava de ver aquela sala tímida destinada ao estúdio, e eram fotos de todos os jeitos: pessoas tristes, felizes, magras, gordas, caipiras, moços da cidade. À noite ela acendia um cigarro na beira da cama e perguntava: "uai, menina, cê não vai fazer tarefa não?!" E eu achava aquela intromissão engraçada, ela realmente era a muleta de nossa mãe enquanto ela estava ausente. Pedia para sua filha, a Lauíza, sentar comigo e ajudar na matemática se fosse preciso, enquanto seu cigarro continuava queimando devagar.
 
Hoje, sempre que passamos em frente à casa da Malu eu digo à minha mãe da mesma forma quão eu gosto dela, e quão ela é querida por ter feito tudo aquilo por nós. E logo dá uma sensação gostosa de respeito e gratidão dentro de dias que às vezes nem são tão bonitos como deveriam ser. Tem certas coisas que existem e confortam o coração da gente, e nem é pelos lençóis macios, ou os potes delicadamente encaixados no armário.

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