Os Marinheiros Francanos

Por: Sônia Machiavelli

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No mundo globalizado as manifestações culturais pertencentes a grupos ou espaços locais correm o risco de desaparecer. É o caso da Folia de Reis, ou Reisado, cuja origem repousa em Portugal, país que igualmente ainda mantém a festa em seu calendário religioso. Diante do esforço dos artistas e do empenho daqueles que os apoiam, tanto me comovo como louvo os que resistem com sua arte, apesar da repercussão restrita e de todos os empecilhos colocados para suas publicações, gravações, apresentações.

 Caracterizada também como festa folclórica, a Folia de Reis, pouco conhecida nos grandes centros, ainda conquista simpatias no interior. Na pequenina Muqui, sul do Espírito Santo, sob  coordenação da Secretaria Municipal de Cultura, acontece desde 1950 o maior encontro nacional de Folia de Reis do País, reunindo cerca de 90 grupos do Rio de Janeiro, de São Paulo e Minas Gerais. Em nosso Estado os foliões mostram sua criatividade em cidades como Araraquara, Barretos, Bebedouro, Bom Jesus dos Perdões, Campinas e Franca. Sim, nossa cidade sedia e acolhe vários grupos que já começam a se organizar para apresentações no período das festas natalinas. Entre eles está o conhecido Marinheiros Francanos, que me presenteou com seu quarto CD, que tem por título “Os nossos melhores hinos de reis”. Gostei muito e já ouvi várias vezes. 
 
Zumiro Batista, mestre-embaixador da companhia, em sua página do  Facebook explica o que o move, bem como a seus companheiros: “uma fé viva e inabalável em Deus, contando com a interseção dos Reis Magos, nos protegendo, livrando e abençoando para nos dar força e levar essa tradição enquanto tivermos força, pois hoje em dia ela está se acabando”. Joaquim Batista da Silva Neto, o Joaquim do Elimar, que tem procurado divulgar o trabalho artístico, concorda com o parceiro e lembra que  em 2014 o grupo gravou  seu primeiro DVD ao vivo, no Teatro Judas Iscariotes, e o segundo CD, acústico. O que me chega às mãos é o de número 4 e tem 14 canções de nomes expressivos: Apresentação da Folia, Criação do Mundo, Adão e Eva, Lembranças Vivas, Profecia, Nascimento de Jesus e Visita dos Três Reis Magos, Noite Iluminada, Viagem dos Três Santos, Pão Sagrado, Almoço dos Foliões, Milagre dos Santos Reis, Louvando o Letreiro, Dia de Chegada, Despedida da Bandeira. Compõem o grupo, junto a Zulmiro, mais de duas dezenas de instrumentistas e cantores. 
 
Os títulos acabam roteirizando a apresentação e explicando seu tema, que é a visita que os três Reis Magos, Melchior, Baltazar, Gaspar fizeram ao recém-nascido Jesus. Não deixa de ser curiosa a lembrança de que os reis só são mencionados pelo evangelista Mateus, que os cita em doze versículos e não alude a números, embora use o plural. De todo modo, a tradição manteve o trio que só no século III recebeu o título de nobreza, talvez para confirmar a profecia que se lê no salmo 72: “todos os reis cairão diante dele”. Cinco séculos depois  eles ganharão nacionalidade. Melchior, persa; Gaspar, indiano; Baltazar, árabe. Em hebreu esses nomes significam ”rei da luz” (melichior); “o branco” (gathaspa); “o senhor dos tesouros  (bithisarea). Quem vai a Colônia e visita sua catedral, cartão postal da cidade alemã, é informado de que ali repousam os restos mortais dos magos. Sem certezas históricas, resta intacta a beleza da simbologia. E o lirismo de Mateus ao narrar a visita dos magos ao menino, levando presentes metafóricos: ouro para rei, incenso para religioso, mirra para profeta. 
 
Envoltas nesses aromas e tingidas por essas cores quentes, as folias acontecem do início de dezembro até final de janeiro, quando as companhias visitam as casas que as acolhem e à sua música, tocada e cantada em volta do presépio, com muita alegria. A primeira a entrar é a bandeira enfeitada com fitas coloridas. Ela fica hasteada em lugar proeminente da sala e todos cantam então a canção de chegada. Em seguida acontecem os almoços, jantares ou lanches  oferecidos pelos donos das casas. Depois os foliões agradecem com novos cantos e saem com a bandeira, retomando a música, até a próxima casa. O palhaço, que usa roupas coloridas, máscara e espada, responsabiliza-se por abrir passagem. Ele recita poemas e versículos da Bíblia. Os demais participantes se dividem de forma que cada um cante de uma maneira no coro de vozes, o que produz um som agradável.
 
O mestre sempre inicia os cânticos, detém a posição mais importante do grupo, é responsável pelo andamento das canções e a colocação das vozes. Conhece a origem do grupo e os fundamentos da apresentação. Isso lhe confere a segurança e a altivez de um maestro.
 
Eu tinha sete anos quando vi pela primeira vez uma apresentação de Folia de Reis. Nunca me esqueci daquela cena que aos meus olhos de menina pareceu um colorido quadro em movimento que o som do bumbo marchetou em minha alma para sempre.

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