O primeiro livro

Por: Angela Gasparetto

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Sempre gostei de ler. Na minha época, as crianças não eram estimuladas tão cedo.

Entrei para a escola com sete anos. Não pude fazer o “jardim-da- infância” como era chamado no meu tempo, o que seria hoje a pré-escola.  Era muito tímida, medrosa e comportada. 
 
Éramos muito pobres e se me matriculassem no “jardim-de-infância” – que por sinal era o meu sonho naquela  época , pois a professora  daquela série era um anjo,  o material seria caro para minha mãe pagar. Era outro Brasil...
 
Antes de entrar para a escola, eu já folheava avidamente os gibis dos meus tios e ficava desesperada para entender o que o Pato Donald ou o Mickey estavam dizendo.
 
Agastava minha irmã que era dois anos mais velha do que eu e que já sabia ler. 
Sentia-me cega e impotente por não entender o que estava escrito.
 
Assim, quando entrei no primeiro ano, o método no início dos anos 70 era a cartilha chamada "Caminho Suave” _ que de suave não tinha nada _ e depois se passava para o primeiro livro. 
 
A nossa professora era iluminada e nos incentivava muito;  fazia-nos sonhar com o dia que pegássemos o primeiro livro nas mãos e pudéssemos lê-lo. 
 
Muito bem, ela fantasiava e eu sonhava com este dia. Com  dificuldades minha mãe pagou o livro adiantado conforme exigia. 
 
Eu estava em uma expectativa enorme, ainda mais que nossa professora decidiu fazer um bolo, sucos, uma verdadeira festa para entregar o primeiro livro aos alunos.
Eu até sonhava com este momento especial. 
 
Chegou o tão esperado dia. Houve bolos, “os ‘ki sucos”, bexiga e nada do livro. 
Meu estômago até embrulhava de tanta expectativa. 
Começou a entrega que foi só no final da festa. A professora ia chamando os nomes dos alunos os quais as mães já haviam pago e entregando o livro com um abraço, um parabéns, etc. 
 
Chamavam todos, menos o meu nome. Eu ansiosa, já com vontade de chorar e gritar. 
 
Nada.  No finalzinho da chamada, ela diz: “Rita”! , eu gelei. Pensei, e eu???  Para explicar, esta “Rita’” era a garota queridinha de todos os professores, pelos mesmos motivos que ainda acontecem nos dias de hoje. Nepotismo.
 
Quando “Rita” chegou para pegar o livro toda feliz, a força do meu olhar fez com que a professora olhasse para mim e percebesse toda a angustia e mesmo censura nos meus olhos.
 
Fez menção de entregar o livro para Rita, me olhou novamente, eu quase chorando, voltou, consultou a lista e disse: ‘’É minha querida Rita, o seu ainda não foi pago. (Era esta a sensibilidade dos anos 70...). 
E dando uma olhada geral na classe: Quem falta ainda? 
Como se eu ainda não faltasse!!- pensei.  Levantei o braço e disse: Eu, professora!! A minha mãe já pagou!"
 Até eu mesma me surpreendi com minha coragem. Ela anuiu e me entregou o objeto da minha cobiça.
 
Nunca fiquei tão feliz na minha vida. Guardo isto com um carinho especial! O livro e a justiça feita.
 
Já sofri muitas injustiças na vida, como todos neste mundo, mas esta talvez fosse a mais imperdoável, porque acalentei aquele dia do  primeiro livro como um sonho desde os dias que vi as primeiras letras na minha vida.
 
Com o livro em mãos, corri para casa, sentei-me embaixo do abacateiro que tínhamos no quintal e li, li, li, até o cair da noite.  Nunca mais parei de ler desde aquele dia.

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