É pavê ou pacomê?

Por: Isabel Fogaça

336069

Quando eu tinha cinco anos meu maior sonho era ter sete, assim eu poderia entrar na escola. Eu já havia aprendido a ler em casa, e queria levar minha própria mochila arrastando as rodinhas pela rua, além de ter o compromisso de organizar minha própria lancheira. 

Com sete anos eu queria ter nove. Meu pai ia diariamente à biblioteca municipal e pegava o limite máximo de livros para ler em casa; então, não havia espaço para os meus gibis, e eu só poderia fazer um cadastro quando tivesse nove anos.
 
Quando finalmente fiz nove, eu queria ter quinze, usar salto plataforma, e treinar na escolinha de futebol, por mais paradoxal que isso possa parecer. Quando fiz quinze minha mãe não permitia que eu viajasse com a capoeira, e não gostava que eu passasse muito tempo jogando bola, então, eu queria ter dezoito. 
 
Quando fiz dezoito eu acabara de formar no colegial, e não sabia direito o que fazer da vida, estudava oito horas por dia esperando que alguma inspiração tocasse meu interfone e dissesse: “Olha, Isabel, você é boa nisso, essa é sua profissão, vai ter muito sucesso profissional”. Mas não aconteceu, então minha mãe olhou nos meus olhos e disse: “Filha, se você quiser morar fora de casa, você vai trabalhar”.
 
Aos dezenove eu estava morando sozinha e trabalhando como vendedora numa loja de shopping. Sentia-me um rato perdido na cidade, fazia publicidade e propaganda, às vezes dormia no ponto de ônibus devido as grandes responsabilidades com a casa, trabalho e faculdade.
 
Quando fiz vinte eu desisti do curso, prestei outro vestibular, fui para outra cidade e comecei a sentir saudade dos meus cinco, nove, e quinze anos. Então, eu já tinha vinte e um e outra vez quis desistir da faculdade. Meu pai respondeu com: “Faça o que achar melhor”, e minha mãe disse: “Volte para a casa”. Então eu fiz vinte e dois, terminei a faculdade, e quis que o tempo parasse, que eu estivesse empregada na minha área, mas me via trabalhando diariamente como caixa de um restaurante e à noite como garçonete em um pub.
 
Vinte e três, entrei no mestrado e foi tão gostoso e libertador como aprender a andar de bicicleta, mas ainda estava presente o desconforto daquela sensação de que o tempo resistia em frear. 
Fiz vinte e quatro e ainda sinto a necessidade de ter um chinelo para encostar  na roda traseira do pneu já que o freio parou de funcionar. Meu irmão esboça as primeiras rugas; o cabelo do meu avô está todo branco; posso correr quinze quilômetros por dia e minha barriga continua aparecendo na camiseta, e minha mãe ao conversar com vizinhos insiste em dizer: “A Isabel tem quase vinte e cinco” e eu grito do meu portão: “Vinte e quatro, mãe! Vinte e quatro!” com uma estranha sensação que um ano a mais de vida representa a impaciência de compromissos que não tardam. 
 
Entretanto, mais uma vez o ano está acabando e às vésperas do Natal sinto que terei que me programar para responder perguntas do tipo: “Com quantos anos você pensa em se casar?”, “Você está ficando velha, logo não poderá ter filhos!”, “Mas você tem um mestrado e ainda não trabalha na área? Por que quer um doutorado?”. Em minha infância, por mais que parecesse completamente inútil ouvir meu tio perguntando: “É pavê ou pacomê?”, é do que eu mais sinto falta. A conclusão nisso tudo é que quando a gente se torna adulto, muda a lógica das coisas.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras