Sentimento oceânico

Por: Maria Luiza Salomão

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Quando visitei Sigmund Freud Museum, em Viena, a casa e consultório de Freud, na Bergasse, n. 19, por 50 anos, guardei de lá algumas fotos de objetos e das fotos, penduradas nas paredes vazias de móveis, esvaziadas de tudo, que me chamaram a atenção.  

Esvaziadas, porque Freud saiu de Viena na correria...fugido do nazismo cruel e assassino, a preservar sua família, e, com a ajuda de amigos influentes internacionalmente, preservando alguns móveis e objetos essenciais a ele (sua coleção de antiguidades). Teria mais um ano de vida, consumido pelo câncer doloroso, que se prolongou por 20 anos.  
 
Apartamento pequeno, bem pequeno. Dureza dos dias de então. A família de Freud, a população austríaca, passou fome e penúrias na I Grande Guerra. A decadência dos Habsburgos, depois de séculos de dominação de vasto território. A morte de Sophie, desnutrida no pós-guerra. A cunhada morava com a família; e outros parentes se apertaram ali, com a família Freud, e filhos – Ernst, Martin, Oliver, Sophie, Mathilde e Anna, a caçula.  
 
Percorri cada cômodo pensando...pensando...depois, observando as pessoas à volta, entretidas como eu. E me diverti com os “velhinhos” sentados ao chão, cabeças brancas (as europeias não tingem os cabelos) trocando murmúrios apaixonados, sobre Herr Professor. Crianças trocando figurinhas de um álbum querido: africanos, italianos, espanhóis,  línguas se misturando.  
 
Como disse, poucos objetos. Esculturas poucas, mala, bengala, objetos pessoais – óculos, charutos, canivete.  E fotos! Uma foto me cativa: o símbolo nazista, que as casas judias eram obrigadas a exibir, no período de dominação a que Viena se submeteu, na fachada do prédio da Bergasse, 19. Viena saudou os invasores.  Nesse dia fatídico da invasão nazista, Freud escreveu: Viena caput.  Acabou Viena!. Ele se manteve ali, na ascensão de Hitler: câncer avançado na mandíbula, a conviver com a prótese de ferro no maxilar: ele a chamava de “monstro”.  
 
Fotografei o título de um livro em uma estante – Il sentimento oceanico –sabia que Freud dizia não sentir tal sentimento... 
 
No entanto, visitando sua casa, senti o tal sentimento oceânico.  Emocionada por estar em Viena – naquele lugar. Eu, que entrei em um universo infinito de novas reflexões, de descobertas infindáveis, depois que iniciei minha análise, quase 40 anos atrás, grupos de estudos e supervisões, dentro da abordagem analítica. Uma jornada longa, até chegar aqui, avistando tantas lonjuras, ainda, de onde estou...
 
Há uma cópia do divã (o original está em Londres).  Ele capitulou aos insistentes pedidos de discípulos, amigos, somente quando sentiu sua filha Anna em perigo, ao sair para uma entrevista com a Gestapo, terrível polícia nazista, levando veneno, que o doutor pessoal da família lhe ofertou, Schur.    
 
Quanto mais escrevo mais me dou conta que não vou conseguir transmitir o tal sentimento oceânico: ao olhar as folhas douradas espalhadas no andar térreo, do primeiro andar, no consultório em que Freud tantas vezes ele acompanhou mudanças de estações, mudanças na família, mudanças sociais e históricas, mudanças nos seus pacientes. 
 
Sentimento oceânico... só posso espargir algumas gotas de sentimento perto do que é infinitamente maior do que eu...    

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