Pileque

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O amor bateu à minha porta.

Era tarde, muito tarde.
 
Sentado à soleira, ou debruçado à janela, eu já vira passar muita coisa pela minha rua. 
Diante de meus olhos, crianças desceram e subiram a rua com cartilhas na mão, namorando os lápis de cor. Os pequenos tropeçavam aqui e ali, mas trepavam em muros, pisavam sempre os degraus da esperança, sempre cresciam.
 
Desceram e subiram velhos empurrando carriolas, negros conduzindo carroças, moças de muitos dentes e mulheres banguelas gestando vida.
 
Pisaram minha calçada ilusões de todas as idades, enquanto desencantos saltavam a cerca, escondiam-se no meu jardim.
 
Cobradores e dores bateram à porta, entraram. Eles se foram, elas ficaram inquilinas, abarrotando corredores e cômodos, invadindo minha cama, onde brincam com a insônia, fazem um barulho enorme, irritam meu sono.
 
Pela minha rua e pela minha calçada passou de tudo. Só não passou um arco-íris nem um uirapuru para mudar o rumo do meu rumo, para evitar o meu pileque.
 
O amor bateu à minha porta, mas era tarde, muito tarde. A alma já estava embriagada de tristeza, de desalento.
 
Por isso, o espírito nada ouviu.

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