Independente

Por: Isabel Fogaça

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A primeira vez que procurei meu nome numa lista de vestibular, há exatamente sete anos, o resultado ultrapassou uma rotina de estudos tanto em casa junto da supervisão de um professor de matemática, quanto acompanhando semanalmente a turma de reforço em geometria na escola. Eu fiquei mal colocada na segunda fase da prova devido à minha falta de amor pelas exatas. Nas disciplinas de humanidades nem precisa perguntar como eu fui, essas foram as matérias que me colocaram dentro da universidade pública, mas as exatas declinaram bruscamente meu desempenho. E quando o resultado saiu, meu pai me ligou eufórico querendo saber a minha colocação. Minha avó paterna foi professora de matemática, meu avô é contador, e meu pai era professor de exatas em um cursinho em São Bernardo do Campo, e eu fiz jus ao ditado que em casa de ferreiro o espeto é de pau.

“Olha pai, eu passei mas fiquei numa colocação ruim, talvez a lista nem rode até chegar em mim!”. Respondi um pouco envergonhada devido à expectativa que ele havia colocado na voz. Então, de modo mais sério, ele respondeu: “Filha, vou te falar uma coisa só, e quero que você coloque isso dentro de você: independente do resultado, você ainda continua sendo você.”. 
Após o desabafo, conversamos mais um pouco, e depois ele desligou. No decorrer daquele dia fiquei triste, inicialmente senti que meu pai não queria demonstrar decepção, ou de maneira terna quis dizer algo que me agradasse em um momento de tensão, mas independente do sentido que aquilo deveria ter, essa frase ecoou em minha cabeça nos últimos sete anos.
 
Independentemente se eu não conseguir a vaga de trabalho, eu vou continuar sendo eu mesma, e ainda vou pedir meu feedback para conhecer minhas deficiências. Independente se eu não for o perfil da loja com um monte de meninas de salto alto e maquiagem, eu gosto verdadeiramente do que eu sou, e continuarei sendo eu mesma. Independentemente se eu não conseguir o primeiro lugar no campeonato de capoeira este ano devido a minha falta de preparo físico, eu vou trabalhar minha mente e meu corpo para ser muito melhor no próximo ano.
 
Independentemente se eu não emagrecer tanto quanto imaginava pelo o sufoco da dieta, continuo sendo eu mesma, e na próxima semana eu vou melhorar. Independentemente de não ter ido tão bem em uma prova, posso descobrir meus erros e trabalhar para ser excelente naquilo que me frustra. Esse foi meu desafio desde que desliguei o telefone no final do ano de 2009.
Há algumas semanas liguei para meu pai, e agora ele me parabenizou pelo fim das disciplinas do mestrado. Então, perguntei: “Pai, você se lembra de quando fui mal no vestibular e você disse que aquilo não importava porque eu continuaria sendo eu mesma?”. Ouvi, então, ele abrir um sorriso, e visualizei todos os seus dentes em minha frente. Pausadamente ele respondeu: “Não lembro mas ainda concordo”. Respondi ao sorriso como se ele também pudesse visualizar, e disse: “Obrigada, isso ainda continua fazendo sentido”.

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