Resenha Relatos Selvagens

Por: Débora Mellem

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Relatos Selvagens(2014), dirigido por Damián Szifron e produzido por Pedro Almodóvar, Augustín Almodóvar e Hugo Sigman é um dos filmes mais sensacionais a que assisti nos últimos tempos. Foi selecionado para o Palma de Ouro, indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 e vencedor como melhor filme de ficção ibero-americano do Prêmio Platino. Ele aborda as explosões de raiva do “animal humano” (denominação de W. R. Bion, psicanalista inglês), que perde a sua condição de pensar diante de frustrações sentidas como intoleráveis.

Na apresentação do longa há fotografias de onças, jacarés, gorilas, elefantes, leões, como um prelúdio das cenas de agressão, que ocorrem nas seis estórias diferentes, que compõem o filme.
A primeira estória inaugura a sequência de surpresas impactantes geradas no espectador. Imaginem a situação de um conjunto de pessoas que estão num avião, prestes a decolar, e, através de conversas, descobrem que todas elas haviam frustrado um mesmo homem, considerado meio louco. Dentre elas estão: a namorada que o traiu com um amigo (também presente no avião), a professora que o reprovou na escola infantil, o examinador que rejeitou sua tese na faculdade, o chefe que o demitiu, a comissária de bordo que não quis sair com ele. A estratégia deste homem frente ao sofrimento do viver é uma só: vingança! Assistimos, então, a uma cena de assassinato coletivo e suicídio.
 
A segunda estória nos apresenta outra forma de vingança, que advém das fantasias mais arcaicas do homem, relacionadas à comida. Uma garçonete depara-se com um cliente do restaurante em que trabalha, um mafioso que lesou cruelmente sua família, provocando o suicídio de seu pai. O ódio que ela sentia não cabia em sua mente e transbordou. Envenenar a comida deste crápula foi o caminho percorrido. Faz-me lembrar da maçã envenenada que a madrasta da Branca de Neve ofereceu-lhe, por invejar a sua beleza. A vingança é a via seguida nos momentos em que não suportamos viver certas emoções, mantê-las em nossa mente e elaborá-las. “O outro deve sentir o que eu sofri! E, melhor ainda, deve pagar o preço com a própria morte!” Este é um dos funcionamentos primitivos do animal humano.
 
A terceira estória nos mostra a ignorância e precariedade do homem que, muitas vezes, observa um fato e chega a conclusões sobre o mesmo, que podem ser completamente equivocadas. Um policial, ao ver um carro caído num rio, dentro do qual há dois corpos carbonizados, um bem próximo ao outro, conclui que ocorreu um crime passional. Pode ser que a única captação verdadeira é que se tratava de algo no terreno das paixões, um excesso, um fato irracional. Aquela cena era fruto da ira de dois homens, que iniciaram uma guerra, em função de um desacordo ocorrido no tráfego dos carros que dirigiam. E as armas usadas nestas batalhas lembram, mais uma vez, o primitivo que persiste em nós, um dos homens chega a urinar e defecar no carro de seu “inimigo”.
 
A próxima estória tem como protagonista o ator Ricardo Darín, numa brilhante atuação como “Bombita”, um engenheiro de implosões de prédios, que não chega a tempo para o aniversário de sua filha  porque seu carro havia sido guinchado injustamente. Ao buscar seus direitos de cidadão, encontra a cruel burocracia do sistema de trânsito e como ninguém o ouve, fica cada vez mais revoltado e perplexo. Num mar de regras insensatas e desrespeito, a única forma como consegue ser visto é explodindo o próprio carro no pátio do serviço público de trânsito. Esta situação revela como é complexa a compreensão da agressividade humana, por um lado é uma forma de defender-nos, mostrarmos que existimos e precisamos de consideração. Ao mesmo tempo, se a nossa capacidade de pensar falha, podemos ingressar na barbárie. Se tentamos negar a nossa raiva, ficamos impotentes, sem garra, desvitalizados. Desenvolver-se  emocionalmente é aprender a manejar nossos impulsos de forma útil e criativa.
 
O filme transcorre enfocando outras formas de violência social, a falta de ética, a corrupção, as negociações sem escrúpulo, até chegar em sua apoteose, a última estória cujo cenário é uma festa de casamento. A noiva, a atriz Erica Rivas, ao festejar seu enlace amoroso, descobre que o marido a estava traindo com uma colega de trabalho, presente na festa. Esta percepção é o detonador de uma “explosão mental”, a raiva e a decepção alastram e perde-se a condição de contenção de emoções. A noiva precisava tentar extinguir sua ferida e, de forma desesperada, quer livrar-se de sua realidade. Ela tem uma relação sexual com o cozinheiro, dança freneticamente para espantar seu sofrimento, pega a amante do marido e a arremessa contra um espelho, deixando-a toda cortada. Essa famosa cena do espelho desperta profundas identificações no público, pois quem já não se sentiu estilhaçado, com o coração despedaçado? E como lidar com esses machucados da alma sem sermos sugados pela loucura?
 
Estas são algumas questões instigantes, que podem aquecer o nosso debate sobre a animalidade presente em todos nós e os recursos psíquicos que podemos desenvolver para sermos realmente humanos.
 
Estão todos convidados para a exibição deste filme, seguida dos comentários da psicanalista e psiquiatra Dra Ana Márcia V. Paula Rodrigues, neste 19 de novembro, às 15:00 horas, no Centro Médico de Franca.

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