Samurai

Por: Isabel Fogaça

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Esta manhã eu olhei para o espelho e notei que acordei com o penteado natural que você nomeou de “samurai”. Um coque alto e bagunçado que faço com um pouco de pressa quando está calor, ou  antes de dormir. Lembrei-me então de tudo que você me ensinou sobre os samurais com base em disciplina, lealdade, e também recordei sua empolgação ao descrever a sua futura tatuagem de katana.

Nos dias que dividimos aqui nesse chão francano, você fez questão de me ensinar um pouco do muito que sabia. Seu zelo em dizer a palavra certa, sua paciência esperando os resultados: eram fórmulas que me amparavam no momento mais turbulento de toda minha vida.
 
Eu estava formada e trabalhando atrás de um caixa de um restaurante, deixava um livro dentro da gaveta para estudar quando ninguém estivesse olhando. Seis meses sem ver meus pais, morava sozinha, vivia com baixo carboidrato não por escolha própria. Passava noites olhando para o escuro do próprio teto, pensando que ia enlouquecer se meu mestrado não passasse de uma expectativa que me destruía um pouco a cada dia. Incrível como quando os limites parecem próximos, a desconstrução de quem somos não é nada otimista, ou seja, neste período eu não via meios de regeneração, apenas ansiava por vitória.
 
E você me dizia compreensivo: “Bel, calma. Eu sei que você quer muito. Eu entendo que quando você queira algo muito, haja sofrimento”. Outras vezes você só ajeitava meu coque de samurai e continuava: “Você já ganhou, isso já é seu. Amanhã você vai acordar, vai fazer sua prova e vai buscar o que você lutou tanto para ter”. E eu com todo coração eu acreditei. Acreditei como uma criança que escuta o pai ao dizer que estará esperando na porta da escola pontualmente quando a aula acabar.
 
Em dias mais tranquilos, nós íamos ver o pôr do sol no Pedrocão, e ficávamos estirados como dois gatos preguiçosos no parquinho, enquanto você indagava porque o personagem principal do Clube da Luta havia visto um pinguim na caverna e não um lobo selvagem. Nas noites, você esperava eu tomar meu café sem açúcar, e comia o biscoito que vinha de brinde,  sentávamos nos degraus do Galo Branco comendo sempre a mesma coisa, falando de nossas percepções da vida, e superações cotidianas. Outras vezes ficávamos quietos escutando a música que vinha do banheiro, você com a mesma suavidade dizia: “Gosto de todas as músicas que tocam aqui”, e eu respondia: “Eu também”.
 
Hoje pouco  falta para eu partir; tentei então descrever o mínimo da sua luta: a perseverança com que você faz cada prova de concurso; o amor com que defende cada sobrinho seu, e até a fúria que carrega nos olhos quando um vocalista de uma banda mais ou menos destrata uma garçonete, porque sei da sua alma e da sua busca por justiça. Sérgio, meu caro amigo, aqui em Franca eu conheci um verdadeiro samurai.

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