Que me perdoe o Casimiro

Por: Angela Gasparetto

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 Plagiando Casimiro de Abreu:  “Oh! que saudades que tenho/ da aurora da minha vida...”

Notei que chegada à maturidade,  estou escrevendo só sobre saudades. Devo estar vivendo pouco o presente, diz uma amiga, ou ficando velha mesmo, digo eu!
 
O presente de repente tornou-se  tão enfadonho, difícil de deglutir, de administrar as mesmices, as respostas que você tem para as perguntas seculares.
 
Então sobra apenas a ‘‘ aurora da minha vida.”
 
Mas estou tão confortável falando do que era bom, que lamento, mas quero falar é  disto!
 
Estou com saudades de ler um bom livro do Machado de Assis, deitada à rede ou no meu quarto, comendo um doce de leite, ouvindo a chuva que cai.
 
Saudades de lendo Machado ou Érico, imaginar que a vida passa devagar, fluindo; que o tempo é o mesmo do personagem escravo da novela  Helena, o qual parava no caminho para descascar uma laranja, descansar da lida e com isto imaginar que era livre por um período de tempo maior.
 
Saudades de noites quietas, de ventos que sopram, de luz que tremula. Saudades de vida longa que se estendia à sua frente e onde você podia fazer escolhas, errar, cair, levantar.
 
Mas, principalmente, saudades da leveza que a vida tinha, da falta de preocupações reais ou inventadas... Principalmente das inventadas.
 
Chega um tempo, querendo ou não, onde você tem que amadurecer. Fazer escolhas mais definitivas, ser responsável, pontual, etc. e tal.
 
Mesmo você sendo isto tudo durante  toda a vida, tem um tempo em que esta hora fica como que formalizada. Vai lá, diz a vida! Seja madura! Cresça e apareça! Isto para ser clichê.
 
Então,  agora na maturidade, permito-me voltar  às saudades. Saudades do banho frio, do correr sem pressa, do olhar de conquista atrevida, do beijo fugidio, da alegria do ser, do tempo da luz.
 
Saudades da aurora da minha vida! Que me perdoe o Casimiro!

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