Zero Um

Por: Isabel Fogaça

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O Natael é o senhor que me leva nos lugares que não consigo ir a pé ou de bicicleta. Na central de moto táxi ele também é conhecido como “Zero Um” ou como “Zero Quatro”. Nos conhecemos há anos, então quando ligo em seu celular, dependendo do dia da semana, ele já atende perguntando: “Você vai para a Rua Pernambuco ou para a Antônio Barbosa Filho?”.

Engraçado pensar nas pessoas que nos levam onde não podemos por algum motivo ir sozinhos. Neste quesito, o Natael foi uma dessas que muito me ajudaram nesses seis anos morando fora de casa. Nos Natais, eu ligava e perguntava: “Nat, o que você está fazendo?” E ele respondia: “Descansando.” Então, eu continuava: “Você gosta de panetone? Comprei um para você, quando puder passe para pegar aqui em casa.”. Ou rotineiramente eu perguntava: “Nat, como está sendo seu dia?” e quando ele respondia: “Difícil”, eu pedia para ele parar na padaria mais próxima e comprava chocolate para nós.
 
Esses dias eu perguntei ao Natael se ele tinha o costume de ler o jornal, ele disse que sim. Então, perguntei se alguém já havia escrito sobre ele, e ele respondeu sorrindo que não, como se o jornal tivesse a obrigação de escrever notícias de crimes e vandalismo. Então, eu continuei dizendo que o jornal poderia sim dizer coisas boas e que possivelmente eu faria isso sobre ele assim que houvesse uma inspiração e uma oportunidade. Suas pupilas boiaram como barquinhos de papel no oceano de seus olhos, então, ele respondeu: “Às vezes você conhece pessoas que se tornam mais importantes em sua vida que sua própria família, não é mesmo?!”. Respondi dizendo que acreditava que cada pessoa tinha um lugar a ocupar dentro de nossas vidas e que por isso ninguém era maior ou de mais valor que ninguém.
 
Hoje eu acordei pensando nas coisas que aprendi com o Natael. Às vezes em meus dias difíceis, ele ia buscar as marmitas no restaurante onde eu era caixa e deixava uma bala escondida embaixo das minhas coisas, de um jeito meio maroto. Outras vezes quando eu precisava ir trabalhar e ele estava ocupado, mandava o Rone me buscar, que é um moto táxi de sua confiança, e quando eu tirava o dinheiro para pagar a corrida, o Rone respondia: “O Natael disse que não era para cobrar”. Eu insistia, e às vezes tinha que colocar o dinheiro sobre a moto e sair correndo. Lembrei-me também das coisas que tentei ensinar ao Natael, e hoje ele não buzina para mulheres, nem joga mais papel na rua.
 
“Você é simplona, sem regalias, é por isso que as pessoas gostam de você” ele diz costumeiramente, e eu respondo da mesma forma: “Eu sou do jeito que acredito que deveria ser”. Então, seguimos viagem. Ele me levando nos lugares onde  eu não consigo chegar sozinha, eu traçando linhas sobre seu incrível poder de afeto. 

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