Adriana Calcanhoto canta Lupicínio

Por: Maria Luiza Salomão

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“É que peço/ a esses moços/ que acreditem em mim/ se eles julgam que há um lindo futuro/ só o amor nesta vida conduz/ saibam que deixam o céu por ser escuro/ e vão ao inferno à procura de luz.” Lupicínio Rodrigues

O CD chama-se “Loucura”, e a seleção é primorosa, gravado em Porto Alegre, 2014, UFRGS. A voz de Adriana, é rouca, é bonita, é doce.  O violão, em muitas músicas, é de Arthur Nestrovski.  Bom gosto sem fim...
 
Ouvi minha mãe cantarolando quase todas, ou as ouvia no rádio? Sucessos grandes!  Como poderia, em verdíssimos anos, assimilar as letras?  
 
Essas músicas antigas são convites à intimidade, sentimentos universais. 
 
Ela disse-me assim,  “por um simples prazer/fui fazer meu amor infeliz.” Como é difícil respeitar o que machuca o outro! 
 
Loucura, “oh Deus, será que o Senhor não está vendo isto? Então, porque é que o Senhor mandou Cristo aqui na Terra para semear amor? (...) por que não deixa eu mostrar a essa gente/ que ainda existe o verdadeiro amor/ faça ela voltar de novo pra o meu lado/ eu me sujeito a ser sacrificado/ salve seu mundo com a minha dor.”  
 
Cadeira vazia: “não te darei carinho nem afeto/ pra te abrigar podes ocupar meu teto/ pra te alimentar, podes comer meu pão”.  A voz que ouvíamos eram potentes, de homens. Na voz de Adriana, uma mulher, fica tão interessante...Melodias tão tristes, que se adivinhava as tragédias. 
Nervos de aço: “eu não sei se o que trago no peito/ é ciúme, é despeito, amizade ou horror. Eu só sinto é que quando a vejo/ me dá um desejo de morte ou de dor.”  Nem sabia avaliar a fundura do sentimento difícil que estava sendo cantado, mas vinha aquela vontade de chorar... 
 
Volta: “volta/ vem viver outra vez a meu lado/ não consigo dormir sem teu braço/ pois meu corpo está acostumado.”  Palavras certas,  sentimento enraizado. Acento de alma, coisa intensa de coração. 
 
Nunca: “quando a gente perde a ilusão/ deve sepultar o coração/ como eu sepultei.” 
Judiaria: “agora que as coisas estão melhorando/ você me aprece pra me aborrecer.”  Tantos versos me lembram Chico Buarque, como  Olhos nos Olhos, e tantas outras...herdeiro clássico desses gênios compositores do passado. 
 
Felicidade: “felicidade foi-se embora/ e a saudade no meu peito ainda mora/é por isso que eu gosto lá de fora/ porque sei que a falsidade não vigora.” (...)  o pensamento parece uma coisa à toa/ mas, como é que a gente voa quando começa a pensar.” 
 
Uma viagem, ouvir esse CD! No túnel da paixão, tresloucada paixão, que confunde céu com inferno, o dentro com o de fora, a vida com a morte. 
 
A verdade é que temos grandes gênios musicais. Basta sentar e ouvir: degustar rindo e chorando, como eles.  

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