Bolsa

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Tia Vanica carregava junto ao peito uma bolsa, tipo embornal, com design e confecção claramente domésticos.  Nascida no século XIX, era a mais velha da família, tia de vovó Ritinha, mãe de minha mãe. Dentro da bolsa, carregava o mundo e suas histórias.  Tinha papéis com rezas e benzeções; listas de compras de várias semanas; flores secas conservadas em papel de seda; tinha tocos de vela dos quais nunca se soube a origem e serventia; pedaços de bolo e biscoitos velhos dentro de guardanapos de pano oferecidos na peregrinação entre sua casa e o destino final – geralmente a casa de vovó; bolsinha com moedas; notas de dinheiro amarfanhadas dentro de uma trouxinha feita com lencinho bordado; terços; garrafinhas com água benta; fotografias recheando um envelope velho, enfim, tudo que lhe era sagrado. Nós, crianças, tínhamos teorias para justificar a dificuldade evidente de ela se separar do embornal: servia como trincheira para esconder dos nossos olhos as deformidades de sua mão queimada na fogueira de um São João de sua infância; ela era bruxa e usava a bolsa como proteção – eram as menos absurdas. 

Na mitologia Atlas carrega o mundo nas costas, Pandora trouxe e abriu a Caixa que leva seu nome e o resultado da bisbilhotice  está acabando conosco.  Hoje, passado meio século, olho as bolsas femininas e me lembro de tia Vanica. Embora tenhamos substituído os elementos, modernizando e diversificando a composição da tralha, também carregamos - agora virtualmente - nosso mundo e nossas histórias: celular; agenda eletrônica; kit de maquiagem; carteira com moedas, dinheiro em notas, cartões de crédito. Dentro dos aparelhos as fotos, músicas, notícias, a possibilidade de comunicação instantânea com qualquer parte do planeta: nosso sagrado, dentro de nossa bolsa. No mundo real nós, mulheres, carregamos o universo nos ombros. 

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