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Por: Luiz Cruz de Oliveira

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A madrugada acordou com o barulho de pancadas nas janelas e nas portas. Custou a entender que não eram urgências. Apenas, os gestos grosseiros do trovão anunciavam a passagem da ventania e da chuva, brigando pelos caminhos.

Quando as goteiras começaram seu choramingo surdo pelo meio da casa, o incômodo e a preocupação arredaram móveis, encostaram a cama na parede.
 
Depois, quando a chuva continuou viagem, e o vento apenas bafejava, quase inerte de cansaço – como se disputara muitas maratonas –, o sol ficou espreitando tudo de longe, camuflado entre nuvens, derretendo gotículas. Na verdade, parecia esconder sua presença, envergonhado da surra que levara da friagem.
 
Até aí, minha ingenuidade ressonava de olhos cerrados, cobrindo de cegueira todo o universo, todos os terremotos que se anunciavam.
 
Todavia, quando o passarinho – que sei engaiolado no meu peito – começou a cantar dolências, as pálpebras tremeram. Depois, piscaram.
 
A medo, abri os olhos, deixei que eles se acostumassem ao ambiente novo.
 
De repente, enxergaram.
 
Ouvi a voz do meu passarinho e traduzi o refrão:
 
— Ela foi embora... ela foi embora...

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