Penas perdidas

Por: Maria Luiza Salomão

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Foi assim: o Daniel, que me vendeu o canarim, me disse que ele estava “abrindo o canto”, depois que perdeu suas penas.

Eu achei tão bonita esta expressão – abrir o canto. Enquanto o canarim abria o seu canto, eu estava a abrir meu canto para ele.

O silêncio se fez, quando, no outro dia, dei com a gaiola vazia. Canarim voou?

- Meu canto se fechou ao dar com o desaparecimento do canarim.

Às vezes a vida reviravolta e a gente pasma: pensa que algo será para sempre e o sempretem fim. Pensa que é para nunca e o nuncadá de cara com algo que nasce na greta do túmulo onde enterramos algo, que, no entanto, reaparece.

Na vida o que há são perdas, ganhos e transformações, metamorfoses, mutações: surgimento de novos seres.

As transformações são o que há de mais interessante nesse mundão velho.

É verdade que perdi meu canarim. Também é verdade que tive outro, que também morreu; também é verdade que não consegui procurar outro para ver mais um canto se abrir – no bico do canarim, e no meu coração. É uma história de nunca mais?

Há outras de para sempre: filhos, por exemplo. São para sempre. Não há jeito de filho sair da lembrança, morto, vivo, exconjurado, se ele vira uma coisa muito diferente do que a gente imaginou, se sai de casa pra nunca mais voltar.

Filho é filho. Elo atávico, algo sem fim de sentir, sem começo do aprendizado. Como éramos antes de tê-los?

Filho é Natal todo dia. Virada de ano a cada minuto. Espanto sem medidas. É bom ter filhos: não dá para aquilatar o tamanho da tarefa.

A maior tarefa humana – criar, gestar, amparar, e torcer para que cresçam e apareçam.

Tudo fica pequeno, se há qualquer ameaça às crias... nada rouba a cena quando um filho sofre, ou se desaponta; se conquista um espaço; se supera uma deficiência que vimos desde sempre. Sentimento monumental, de fazer estátua na alma, um museu de estátuas de momentos, os que a gente vive com um filho.

Já se disse que filho dura muito, como se fora carga pesada. Mas deve de ser piada. Filho é para durar muito mesmo, mais do que minha imaginação.

Esperar um filho, criar um filho é navegar sem rumo, aportar em ilha desconhecida; é carnaval e é velório em ciclos aleatórios, sem datas marcadas.

Filho é muita prosa e muita poesia. Tenho dois, poderia ter meia dúzia, mas minha covardia me fez ficar com dois. Mas são dois infinitos, à enésima potência.

A vida é quase impensável sem eles. Minha mente é precária para tanta transformação que se há de fazer para vir a ser mãe (nunca me completo nessa função!).

Faz muito tempo que deixei de ser filha: nem me lembro como era.

Ser mãe é coisa para gente grande: saber perder as penas e abrir o canto; fazer ninho e aceitar o ninho vazio; aprender, todos os dias, a não querer substituir o imenso, interessante, memorável, precioso vazio, que se abre, quando eles perdem as penas e abrem o canto.

No entanto, não há vazio permanente no coração da mãe que ama. Acho que nem há vazio de jeito nenhum, no depois de ser mãe. 

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