Secura

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Era verão.

E o rio transbordava, e a água ficava turva, transportando, apressada, folhas, galhos, pequenos troncos, algum bicho desavisadamente afogado, morto. E um mundo de objetos miúdos viajava, abraçado à correnteza, para outro mundo, onde iria realizar o seu destino santo de alimentar peixe, de adubar corais.
 
Depois era outono.
 
E o rio entoava cantigas de ninar borboletas e colibris. O sol, sonolento, olhava a água transparente, via os lambaris e seus parentes brincando na superfície movediça que descia molemente em direção ao sal e ao majestoso.
 
Depois era inverno.
 
A água ficava fria e não mais podíamos nela molhar os pés. Sumia o dourado das escamas, escondidas em locas e em remansos.
 
Depois era primavera. 
 
Era quando as abelhas duetavam com as águas, enquanto realizavam sua faina de recolher néctar nas duas bandas do rio.
 
Depois ela se foi na boléia de uma manhã, engolida pela noite. Ela se foi, esquecida da água que a vida espargia na vida, batizando inocência ao renascer de cada estação.
 
Ela se foi.
 
E eu caminho meu caminho. Por horas percorro distâncias. Vou e volto. Olhando as margens mudas, os remansos vazios,  subo e desço o leito seco.
 
Piso areia, pedras e terra ressequida.
 
Ela se foi.
 
E sequidão é o que há.

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