DANDO CORDA

Por: Maria Luiza Salomão

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Estiquei ao máximo a corda-tempo para encontrar o misterioso ponto do nó: onde foi que engripou a comunicação? Eu não estava presente quando houve um corte... não se deu lenta, nem suavemente. Foi um “perdido”.  

Algo na fantasia de João, algo na fantasia de Pedro. Um raio fulminante cortou o céu de brigadeiro e a mágica deixou de existir entre dois homens que se davam tão bem. Fui testemunha. 
 
O que “entre” dois seres faz acontecer um black-out?  No geral, eu tenho hipóteses quando acontece comigo e outras pessoas.  Posso, devo errar na avaliação dos sentimentos, meus e os do outro.  
 
Os caminhos percorridos pelo sentir/pensar são complexos. E entre um casal ou entre duas mentes das quais a gente se vê excluído não é possível “meter a colher”, ou compreender o que está em jogo nas interrelações.   
 
Dois homens trancados, cada qual à sua maneira, é o que me parece hoje.  Blindagens diferentes. Um soturno e outro extrovertido. Um de medidas maneiras, o outro brincalhão.  Em geral, não pensamos que um brincalhão meça suas falas, tomamos como sendo, nele, espontâneas. 
 
Não é o caso de Pedro, o brincalhão: eu pude observá-lo melhor, no reencontro depois de muitos anos. Pedro é calculista, mede sorrisos. Sabe o meio sorriso quando dar, e o sorriso e meio no quando escancarar. Sabe o timing da piada, e tem cortinas de fumaça para esconder atrás. 
 
João não: é estável na tranca da fisionomia – se sorri, é um flash, um risco que se recolhe rápido na carapaça: os olhos nem piscam, vigiam e vigiam, trespassam, do mesmo jeito que vem vai a mensagem, apenas recolhida e timbrada, devidamente devolvida sem muitos acréscimos. 
 
É só quando tudo se escancara que João começa a contar uma história. João conta histórias, como Pedro faz piadas: para preencher silêncios. As histórias de João são neutras, o que sempre permite a Pedro que ele brinque, faça piadas, e preencha, ao seu modo, os silêncios, mas sem comprometimentos, de ambos os lados. 
 
O abraço não veio entre os dois, “aquele” abraço do perdão, do “zerar” passados ressentidos. Eu esperei, talvez os dois esperassem também. Estavam emocionados e, dessa vez, blindagem espelhada: os dois silentes. Ainda não veio “o” abraço. Mas desconfio que virá. Ao seu tempo, nos intervalos das respectivas medições, quando João permitir e quando Pedro arriscar.  A coisa é lenta, coreografada, dois bichos a mapear territórios emocionais...
 
Eu? Respeito ambos. Muito. Também sou bicho e sei de mapas e cercas e riscos e medidas.  Estou dando corda e sinto que um e outro a puxam ao seu modo, tateando, sem puxões bruscos. 
 
Devagar o nó vai se desatando... quem há de saber quem é que deu o laço apertado?  E também, agora, de que adianta saber quem começou e quem terminou? 
 
La nave va... etc...  

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