um pedacinho de lembrança

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Estou saturado de ausências, sem vontade alguma, sequer a de estender o braço, abrir a portinhola e soltar o canário do reino que o vizinho insiste em manter aprisionado na gaiola. Resulta inútil até o esforço para desenhar nos olhos uma cachoeira, um pedaço de serra, mesmo um fio de água. 

Estou saturado, saturado de vazio.
 
É quando chega a Solidão, amante fiel, e me arrasta para fora do quarto, para o Sítio Santa Adolescência, que costumamos visitar à hora do lusco-fusco. Enquanto ela cerra portas e janelas da casa-sede, aquece a água no fogão à lenha, perfuma o quarto com sua presença, repito a rotina: percorro trilhas, enquanto arranco sons dolentes do violão quase centenário.
 
O luar bisbilhota por entre os galhos, apontando o caminho. De repente, seus olhos de lanterna iluminam objeto no chão, entre as folhas secas. Cuidadoso, como se colhesse pepita, recolho aquela coisa brilhante.
 
Na sala, na claridade artificial, desfazem-se todos os mistérios: é um pedacinho de lembrança.

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