Sítio Esperança

Por: Sônia Machiavelli

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‘Deistá que não há como um dia atrás do outro’, diz a mulher idosa que enrola seu cigarro de palha sem saber que  acaba de repetir  o pensamento de um grego muito antigo. ‘Isso é pra mode  a gente não desacoçoá,  madrinha sempre fala’, responde a  jovem ligeira que varre o chão batido com certa fúria engraçada.   ‘Destamanho nunca tinha visto por aqui’, avalia o pescador  exagerado e meio surdo,  peixe ainda no anzol,  passo estacado no meio do aclive-‘ hein?’

 Galinhas cor de cobre, misturadas a outras acinzentadas, ciscam entre pés humanos, uns calçados, outros nus. Meninos fazem guerra de mamonas, depois encontram  uma tira de couro que transformam numa funda, ignorantes de qualquer Davi, sem nunca terem ouvido falar de Golias. A menina que começa a andar se curva na direção do capim e traz de lá agarrado entre os dedinhos um trevo que justifica seu nome: os de quatro são muito raros de encontrar...  A outra, ali perto, vestida de chita, abre com velha e entortada colher um buraco onde deposita  sementes de laranja; depois  respinga  água  com  latinha transformada em regador.
 
Um beija-flor relampeja instante verde-metálico, resvala sobre pétalas de jasmim, some-se  entre verbenas  sem deixar mínimo recado. Vagos mugidos chegam de longe, bois levam sua  lentidão para muito além do capim-gordura  que tinge de rosa a paisagem. Cães pequenos e magros esticados à sombra  observam  os humanos. 
 
Cai da árvore centenária  em maduro ploft uma fruta amarela que pode virar algum licor, dependendo de estar a  lata de açúcar meio cheia ou meio vazia. A brisa que vem do rio faz tilintar guizos e cabaças penduradas em velho caibro. O sol deixou faz tempo o lado de lá da restinga e migra agora para trás da serra. Lírios rústicos começam a liberar seu perfume. Logo os grilos vão iniciar sua cantilena monótona e vagalumes acenderão magia nos olhos das crianças.
 Uma rede balança ao léu:  alguém acabou de se levantar, a marca do pé direito ainda é visível no solo fofo.  Uma  voz feminina  se alteia  avisando sobre o cardápio da janta: “Hoje é angu com ora-pro-nobis ; mas em antes  a gente reza  pra agradecer o ano que tá acabano, não vamo  queixar não, morreu ninguém da famia;  vamo é  pedir  saúde e alegria no ano que vai chegano, porque vai tê gente nova que carece de encontrar um mundo mais bonito”.
 
A moça alta, um quê acentuado de cabocla na tez e nos cabelos lisos como água, abre a porta azul da casa caiada e sua grande barriga quase ocupa todo o vão. Olha a lua ainda pálida no lusco-fusco do último dia de dezembro  e  esboça o sorriso confiante com que responde à  fala da mãe. Em seguida acaricia o fruto de seu ventre e olha o pedaço de madeira tosca onde o marido acabou de escrever  com tinta verde o nome da pequena propriedade a custo adquirida: Sítio Esperança. 
 
Às vezes as placas que nominam logradouros sabem muito dos lugares onde as estacam.

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