versos quebrados

Por: Luiz Cruz de Oliveira

341251

Na mochila, papel e caneta. No espírito, sonhos – material suficiente para todas as escaladas.

Parti.
 
Transpus florestas inexploradas e devastadas. Visitei ilhas virgens e continentes agonizantes e dormi sob jatobás e figueiras. Repousei sobre dunas, enquanto o sol inventava e desenhava nos meus olhos milhares de oásis e de cachoeiras que se enevoavam entre meus dedos.  
 
 Naveguei mares vivos e mortos. Meus pés e mãos se feriram em arrecifes, e a sola do pé engrossou nas longas caminhadas pelo areal nu às vezes, às vezes ensombrado de coqueiros.
Na canoa rústica, naveguei o igarapé escondido dos homens, camuflado só de sombra, só de verde, lá longe, do lado de lá da muralha de pedra construída no começo do mundo.
 
Sentei-me no braço da cruz do Cruzeiro do Sul, depois fui correr nos anéis de Saturno. O corpo molhado de suor banhei na lagoa que só eu sei, bem lá no fundo da cratera escondida na face oculta da lua.
 
Cada lugar visitado permitiu colheita, e fui recolhendo notas: a pepita mais dourada, a safira mais bela, a pérola da concha mais recôndita. Um espinho da coroa mais injusta, um seixo da montanha lunar, um frasco de vapores de um anel, um pingo de orvalho, um cintilar de gorjeio, uma manada de vagalumes... tudo eram notas a engravidar mochila e espírito.
 
E, qual menino diante do quebra-cabeça, com escalas e notas, brinquei noites e dias e meses e anos e, ao ritmo da ternura, compus uma canção. A mulher se disse envaidecida de saber-se tão amada.
 
Teve de ir, no entanto, à janela, curiosa de ver quem passava. 
 
Aproveitando a abertura maior, a corrente de ar se esgueirou pelas frestas, soprou sobre a mesa, derrubando objetos e arpejos e escalas.
 
A canção voou por um momento, oscilou no ar, caiu, espatifou-se.
 
Meus versos, quebrados, espalharam-se pela vida.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras