Curta metragem japonês numa noite de Franca

Por: Isabel Fogaça

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Na minha última semana trabalhando nos bares de Franca, atendi uma mesa com três pessoas: um coroa com um relógio enorme, camisa social aberta até o peito onde uma corrente com o símbolo yin yang ficava evidente. Fazia questão de demonstrar as duas garrafas de bebida de alto custo no meio da mesa, o senhor que molhava o bigode toda vez que insistia em levar o copo até a boca, parecia ter vindo de um filme junto das duas mulheres que o acompanhava nos goles de álcool. As duas tinham aproximadamente cinquenta anos cada, eram semelhantes no modo de vestir: usavam salto alto, tinham unhas vermelhas enormes, cabelo alisado e platinado, vestidos curtos e grudados no corpo como se houvesse uma mistura por baixo do pano que cumpria o papel de deixar o tecido colado à pele. Naquela noite eu me senti verdadeiramente num filme de ação que vemos facilmente nas madrugadas sem sono quando ligamos na rede globo.

Uma das mulheres mascava o chiclete com a boca aberta, e ria tanto que eu quase pude ver seu ultimo tratamento de canal e o clareamento feito recentemente. A outra cruzava as pernas de modo que fez o bar todo se sentir desconfortável naquela noite. Não que eu goste de reparar, mas é tarefa do garçom ficar atento a cada movimento de braço feito pelo cliente, além da cor de sua roupa, e quantidade de bebida que consome. 
 
Em meus pensamentos aquela era uma perfeita cena planejada por Tarantino, e eu só estava esperando o coroa acender o charuto e os ninjas descerem do teto enquanto uma espada misteriosa saísse debaixo da mesa e roubasse o yin yang de seu pescoço, mas seria muita pretensão viver esta cena em minha ultima noite trabalhando como garçonete.
 
O coroa me chama com um sorriso largo, vou até à mesa e ele pergunta: “Menina, o que você acha do hambúrguer que servem aqui?”, as duas mulheres riem como se fosse uma piada de alto nível. Então, respondo: “A crítica fala muito bem do hambúrguer servido pelo bar”, e continuo séria ignorando a efusividade alheia. Ele então continua, agora mais ácido: “Estou perguntando o que você acha do hambúrguer não o que as pessoas acham do hambúrguer”. Olho para o lado e as gêmeas seguram o riso. “Eu não como carne, então tenho que me respaldar na opinião alheia que posso garantir que é positiva”. Ele me olha um tanto assustado e diz autoritário: “Me traz uma dúzia deste hambúrguer!”.
 
Saio da mesa, levo o pedido até à cozinha. E quando volto, ele me chama novamente até onde está: “Posso saber por que diabos você não come carne?” as mulheres riem para variar. Eu respondo paciente: “Porque não acho que seja certo comer”. E ele retruca de maneira estúpida: “Ok, pode sair daqui agora”. Naquele momento senti que eles gostavam de usar garçons como bobo da corte, mas mesmo assim respondi de maneira educada e saí da mesa. Logo que voltei para meu posto, ele me chama novamente e diz: “Minha amiga quer te dizer algo” e pressiona uma das mulheres para falar, enquanto ela, para variar, ri. A mulher olha de forma irônica e diz satirizando: “Nós amamos o jeito que você amarra o cabelo” e no meio da frase todos começam a rir no mesmo ritmo como uma orquestra sincronizada.
 
Olho para os três sem esboçar sorriso e pergunto: “Me desculpem, vocês me chamaram até aqui, gostariam de pedir alguma coisa, ou é só isso?” não dou tempo para que eles possam responder, apenas saio da mesa. Perco a esperança de aquilo ser um filme do Tarantino atribuo ao trio a uma tentativa de curta metragem feito no Japão. Tarantino seria ácido na construção das piadas, e uma das loiras com certeza teria personalidade forte e seria uma das rivais da Beatrix Kiddo.
 
O símbolo do yin yang continua brilhando no pescoço do coroa, fixo meu olhar na corrente e penso que por mais que o filme seja ruim há sempre uma mensagem querendo ser dita. A frase “por trás de todo mal há sempre um pouco do bem, e por trás do bem há sempre um pouco do mal” ecoa dentro de minha cabeça. Meu otimismo tenta captar minha última lição positiva trabalhando à noite, falho, mas pelo menos eles pagaram os 10%.

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