A PALAVRA PARA O ANO QUE VEM...

Por: Maria Luiza Salomão

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Matuto na palavra que condense algo que anseio para o ano que vem e me ocorre misericórdia.  Compaixão, solidariedade não teriam a força que buscava –  não parecem conter a miserabilidade da condição humana atual, a precariedade, o desamor, a ausência de empatia...

Palavra que me faz lembrar a cor roxa nas vestes dos padres na igreja, nos panos que cobrem os santos, na dor da paixão de Cristo, na dor da paixão dos sírios em Aleppo, na dor e na miséria dos refugiados, milhões que desterram e procuram abrigo em países que muitas vezes lhes fecham as portas, as mãos, os olhos. 
 
Palavra que lembra os cantos dos negros escravos. A dizimação dos índios.  A inquisição e perseguição dos infiéis, das bruxas, das mulheres, dos judeus. Holocaustos. Bombas atômicas. Gerações traumatizadas.  
 
Ah, misericórdia! Líderes violentos, desorientados, têm surgido no mundo...
 
Palavra-lamento- último grito de quem é massacrado, humilhado, despojado de sua dignidade. Prisioneiros de guerra, prestes a morrer pela arma do inimigo. Aqueles que, em silêncio, sofrem as dores do fogo do inferno - por um filho violento, ou drogado; um pai insensível;  uma mãe tresloucada; um amigo descuidado e covarde; por fofocas destrutivas; pelo sorriso hipócrita daquele que nos assassina às nossas costas – “até tu, Brutus?”.
 
São tantas as formas como – no auge do sofrimento – soam o grito, ou sussurro, de misericórdia.  O cinismo dos governantes, que dizem governar pelo povo, para o povo, com o povo, e não gaguejam ao mentirem.  Desmascarados, tornam-se vítimas. Misericórdia!  Como perdoá-los, deles ter compaixão, se lesaram a esperança de milhões de brasileiros, que vão passar fome e sede?
 
- Em nome do povo se diz tanta coisa...misericórdia!
 
: não quero que morra a empatia, a compaixão, a fé no humano que em mim persiste, que insiste, que consiste – simplesmente - na minha própria sobrevivência.  Não saberia como sobreviver se não confiasse na bondade minha e na do meu próximo, e na do mais distante. Vejo  irracionalidade, bestialidade, causando terror. Não consigo chamar quem age, acredita, e faz acontecer o terror, de animais. Seria desrespeitoso aos animais (que muito amo): os animais  seguem  um código instintivo – pela sobrevivência da espécie – de cuidado e de preservação. 
Nós, humanos, precisamos criar, via cultura, um código de humanidade, que não está presente em alguns indivíduos: não há um instinto coletivo; há uma cultura civilizatória, que não atinge a todos em grau semelhante.
 
Misericórdia, porque não há outra palavra. Quando não há Palavra alguma: esgotada em sangue e em lágrimas; ela mente e não diz o que precisa dizer; ela falta quando da necessidade vital.
Misericórdia: somos pequenos, imperfeitos, teimosos, burros, ignorantes, cegos, mudos, aleijados, sonâmbulos, e vivemos nas sombras.  Precisamos de uma réstia de luz, uma fresta fresca de ar a encher nossos pulmões de outra vida, para sairmos da condição de desmemoriados peixes vagantes em útero estreito. . 
 
Quem lê está contagiado pela misericórdia. Que façamos, juntos, cada qual em seu canto, um novo mundo, por misericórdia!       

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