Milton Hatoum, a voz do Norte

Por: Sônia Machiavelli

342290

Metade dos dez capítulos de Dois Irmãos, minissérie que a Globo exibe no horário das 23 horas, recebeu largos  elogios do público, da crítica e do próprio autor do romance homônimo  no qual foi inspirada. O elenco é, como se dizia antigamente, estelar. O trabalho da roteirista Maria Camargo, meticuloso. A direção artística de Luiz Fernando Carvalho, preciosa.  Tudo confluiu para que os intensos conflitos de uma família de imigrantes libaneses, com ênfase na rivalidade dos irmãos  Omar e Yakub,  transitassem  sem  falseamentos da literatura para a linguagem televisiva. Quem conta a história é Nael, filho de Domingas, a menina indígena  destinada a Zana, a matriarca  da família.

 "É  uma obra com camadas sociológicas, antropológicas e históricas, tudo isso rebatido na mesa de jantar de uma família de imigrantes libaneses, no odor dos quartos, na sensualidade de uma mãe, no afeto desmedido por um de seus filhos, nos ciúmes dos outros membros da família e nas perdas que o tempo nos revela”, disse  Carvalho a respeito de Dois Irmãos. É um Brasil  em formação, composto pelos sonhos, mas também pela força de trabalho dos imigrantes”, completou, referindo-se à adaptação do romance de Milton Hatoum. Este,  chamado  por Mauro Ventura  em  texto reverente de “o colecionador de prêmios”,  respondeu com frase despretensiosa em artigo de Roberto Amorim: “ Não escrevo para ganhá-los”. Mas quem o lê não pode deixar de arrematar: “Ele faz por merecê-los”. Só Jabuti foram três. 
 
Sua obra é composta até agora por cinco títulos. Os romances Relato de um certo Oriente (1989), Dois irmãos (2000), Cinzas do Norte ( 2005), Órfãos do Eldorado (2008). E a reunião  de contos A cidade ilhada (2009). Um conjunto modesto, se o cotejamos com o de outros ficcionistas brasileiros contemporâneos. As narrativas também são relativamente curtas, reflexo das frases concisas, dos períodos  simples, da economia de palavras. Os sentidos aparecem mais no arcabouço do relato (sempre iniciado pelo fim) e na psicologia dos personagens (construídos em sobreposição de traços) e menos  no discurso do narrador. Com intervalos médios de cinco anos entre uma publicação e outra, o escritor costuma dizer  que escreve com entrega  e reescreve  com cuidado. Também  gosta de profetizar  que lhe falta apenas um romance em elaboração para que coloque  um ponto final no que tem a dizer. Será?!
 
Se é quase  minimalista nos contos e enxuta nos romances, a literatura de Hatoum desperta, contraditoriamente,  no leitor uma sensação que o conduz ao  campo semântico das coisas caudalosas. A força  das histórias nos arrebata como ondas que arrastam para lugares de funduras diversas, algumas vezes abissais, onde se faz a identificação com os personagens pela nossa comum humanidade.
 
Hatoun  é aquele tipo de escritor que ao construir uma história que lhe pertence confessadamente enquanto memória  pessoal, a amplia em círculos concêntricos que vão percutindo a família, a vizinhança, o bairro. E a cidade – a Manaus exuberante e ao mesmo tempo  mesquinha; fértil  e  miserável;  grandiosa mas também pérfida. Personagem  aquática espraiando seus tentáculos flutuantes  pelo rio e pela floresta.
 
Tornada  Macondo singular povoada por índios, mestiços, portugueses, imigrante árabes, sírios, judeus marroquinos, migrantes do Sul,  gentes muito diversas  que estratificam a sociedade numa interação difícil onde o preconceito lateja o tempo todo, oculto por camadas de disfarce, Manaus vai além do lugar por onde os personagens  circulam. Enquanto espaço social,  é uma representação do nosso país: “ É um Brasil em formação, composto pelos sonhos, mas também pela força de trabalho dos imigrantes”, explicou  Luiz Fernando Carvalho antes da estreia da minissérie na última segunda-feira. Deveria  ter acrescentado: pelo sofrimento dos  excluídos como  Nael e Domingas também. 
 
Filho de libanês que se casou com brasileira de igual ascendência, Hatoum sentiu desde muito cedo as diferenças na convivência com o Outro. Tanto ouvia as histórias contadas em português trôpego pelos  árabes (oriundos do Oriente Médio) e judeus (emigrados do Norte da África), hóspedes da pensão Fenícia, onde o escritor cresceu, como acompanhava extasiado as lendas de uma rica mitologia que era traduzida pelos índios e índias que se empregavam no trabalho doméstico . Tão diferentes culturas e crenças amalgamadas pela alma sensível  foram tijolos no erguimento de uma ficção que os leitores brasileiros passaram a conhecer e amar, por seu viés  ao mesmo tempo particular e universal. 
 
Relato de um Certo Oriente, o romance de estreia, mostra  tanto os  conflitos familiares que seriam o leit-motiv de toda a obra de Hatoun, como a cidade, às vezes  capturada pela retina com traços líricos.  Nada linear, a história é contada por múltiplos narradores enfeixados por uma voz feminina. Todos recuperam  a história da mulher que volta a Manaus,  terra natal, depois de vinte anos de ausência.  Pela memória e pelos fatos deflagrados após seu regresso, reconstrói-se   sua história. 
 
Cinzas do Norte é  viagem aos anos de implantação da ditadura militar no Brasil e, segundo um dos personagens, “os do início da destruição de Manaus”, para cujo concurso se mostrarão eficientes a criação da Zona Franca e a formação do bairro Cidade Nova, que  vai reaparecer em textos  posteriores. Tradutor de Flaubert, Hatoun mostra neste romance algumas influências do francês e resgata um trecho que poderia ter sido escrito pelo autor de Madame Bovary: “Estou trabalhando, mana, disse tio Ran. Trabalho com a imaginação dos outros e com a minha.” Tempos depois de ter ouvido estas frases, o narrador Lavo conclui que aquela “era uma das definições de literatura”. Romance tecido com tintas políticas,  oferece ao leitor uma alegoria do exílio (em Londres e Berlim) na figura de Mundo, o filho que se opõe ao pai. E  faz uso de cartas como recurso para mostrar diferentes visões de mundo. 
 
Esse conflito entre pai e filho reaparece em Órfãos do Eldorado, último romance  publicado. Arminto, o narrador, neto de branco explorador de madeira, borracha e minérios, filho de empresário da navegação,  entra em processo de dissipação do patrimônio logo depois da morte do pai, com quem nunca se afinara. O “Eldorado” do título é uma referência ao mito amazônico da Cidade Encantada, lugar edênico no fundo do  Amazonas para onde muitas pessoas tentam ir, seduzidas pela força mágica das águas. No romance, a cidade mítica  é representada pela órfã  Dinaura, cuja  rara beleza  atrai o protagonista. Abela e o rio se equivalem como signos de naufrágio.  O fascínio pela primeira faz com que Arminto se descuide do cargueiro chamado  Eldorado, que naufraga. Estes  dois naufrágios  levam o protagonista  à ruína. Aliás, são vários os náufragos desta  história de ruínas, cujas imagens impactantes  são mostradas desde o  início, quando uma índia adentra o rio até se afogar.  Lendas ribeirinhas ganham  o tecido narrativo e o relato  flui rápido para afinal se espraiar como uma foz, permitindo infinitas possibilidades de leitura.
 
Os contos de Cidade Ilhada retomam alguns temas e exploram outros, mantendo  o final aberto dos romances. 
 
Se você não conhece a obra de Milton Hatoum, veja a minissérie e depois leia o livro, os livros. Sua imagem sobre o Norte, se for linear como era a minha, poderá ser resignificada pelo olhar que só um escritor de excelência e comprometido com a riqueza da palavra escrita  sabe conferir às coisas mais duras  de se contar. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras