O OBJETO VIVO

Por: Maria Luiza Salomão

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Vivo umas experiências sincrônicas em que costumo prestar atenção; não gosto de chamá-las de “coincidências”; talvez sejam, talvez não.

 Existem fenômenos para os quais tenho um foco especial -  aqueles que me importam – no momento. Talvez isto aconteça com toda a gente... de repente, alguém querido (ou você mesma) esteja grávido, e você começa a ver grávidas em todos os lugares...coisas assim...
 
Meus livros parecem vivos, e me acenam, do lugar em que estão (periodicamente eu mudo os livros de lugar, na estante, ou para outra estante, segundo o autor, o tema, o grupo de livros que me interessa no momento).  Eles me chamam para serem lidos... e, frequentemente, não se enganam, eu precisava deles. 
 
Havia um objeto vivo na casa dos meus padrinhos, com os quais morei enquanto fiz Faculdade. No entanto, somente ontem, divagando enquanto dirigia de casa para o consultório, me dei conta do quanto o objeto significava a casa, meus padrinhos, o que eu sentia por eles, e que ainda sinto ao me lembrar deles, e da casa onde morei. 
 
Um objeto maciço, de ferro grosso, granulado na textura, enegrecido pela ação do tempo, um objeto redondo, uma panela com uma tampa. Teria uns 30 ou 40 cm de diâmetro, ocupava um quarto de uma larga mesa de centro de uma sala bem espaçosa, que dava para a varanda da piscina.  O chão de mármore sempre muito liso e estampado em tons pastéis, verde e bege e marrom claro, e a mesa com objetos pequenos – cinzeiros, bombonière, e livros. Dois ambientes na sala,  um em que ficava o piano que minha prima tocava: o piano era também objeto vivo. O outro ambiente girava em torno daquela panela tampada que, silenciosa, falava comigo, ainda fala. 
 
Meus padrinhos sempre foram pessoas de muito bom gosto e requinte. Aquela panela de ferro era algo que parecia antigo, pertencente a outra época, outra geração, talvez século XIX.  Para mim, teve e tem uma aura que me faz pensar na solidez que via na relação que eles mantinham entre si: uma complementariedade, uma atmosfera erótica, de cumplicidade, de amor (como tenho aprendido a entender amor...). 
 
O objeto, que não sei aonde se encontra, já que os dois não estão mais vivos, deve ter continuado a existir. Ainda existe em mim. E me diz do que não se acaba, do que pode ser guardado ali (mas nunca tinha nada dentro dele, eu checava, de quando em quando).  Para mim, sempre foi o objeto mais chique da casa.  E, no entanto, era uma família de posses, e com objetos valiosos. 
 
Não posso saber da história do objeto, se veio da família de origem italiana do meu padrinho, se foi adquirido em alguma loja de antiguidades, se foi presente de alguém... nada sei. 
O objeto guarda a história deles. Se o visse em outra casa, em outro lugar, talvez fosse outro objeto. Se o visse em uma loja de antiguidade, talvez não o pudesse adquirir, talvez...
 
Os objetos têm vida, e ontem, por coincidência, sincronia, whatever, o que for, Nelson Leirner, o artista plástico, dizia que um objeto adquire vida não na loja em que o compramos, mas quando o abrigamos na nossa casa, na relação que se estabelece conosco, ou quando conversa com outros objetos da casa. Acredito nisso, vivo isso, eu que tenho objetos como forma de me ter. 
 
Eu me tenho através de alguns objetos, eles me são. Eles me foram, eles me sobreviverão. São vivos, e, ainda mais do que eu, são imortais.         

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