Flexibilidade e dispersão

Por: Maria Luiza Salomão

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Há um ano tento aprender o Tai Chi.  Pensava ser um tipo de dança: um grupo de pessoas a fazer os mesmos movimentos, em ritmo de câmera lenta, algo que me emociona contemplar. 

O que são esses movimentos? Que silêncio é esse emanado dos gestos, sem música audível, que se sucedem em sequência, como se movimentados por uma brisa suave? 
 
Silêncio e vento...uma oração coletiva...concentração...meditação... 
 
Tai Chi é uma luta, aprendo. Os gestos são de defesa e ataque. A luta é contra um inimigo invisível, um inimigo-sombra. Quem esse invisível, esse sombra de mim? 
 
- Eu mesma, moi, ich, me, yo, I am, eu mesma sou meu inimigo invisível, minha sombra, que carrego como se fora outro, estranho, estrangeiro. 
 
Tai Chi é milenar, na compreensão da energia circulante, masculina e feminina, yang/yin.  Sempre juntas, ativa e passivamente, em permanente contração/expansão. 
 
Em um desses encontros com Alexandre Reis, músico e meu mestre, me ocorreu algo a respeito da flexibilidade, difícil de manter no processo de envelhecimento natural do corpo.  
 
Como alcançar adaptabilidade e brandura, nos gestos, nas palavras, na ação física e mental?
 
Há um afã na busca incessante, que não envelhece ao longo dos anos vividos,  de ... de quê mesmo?  Ser mais eficiente, ter sucesso, ter dinheiro, posição social, ter amigos, ter...ter...ter... essa miríade de anseios liquefazem  a vida, lembrando  Bauman, vida que escorre como  areia da ampulheta, sem paradas, sem consciência, por vezes, do que e de como se busca, a desconsiderar os motivos, os desejos, o motor da busca. 
 
Tempo perdido sem o filtro da experiência emocional:  viver o que se  vive agora, já, com atenção e proveito.  
 
Flexibilidade precisa de conscientização do corpo, seus limites e recursos. Conscientização do desejo: motor da busca. O motor das buscas está alojado na alma, no que somos, graças - e apesar - de nosso “eu” de plantão (nem sempre sintônico com esse motor das buscas).  
 
O “eu” de plantão intui outros “eus” que podem surgir como nuvens, fofas ou pesadas, no céu da alma e, assim, nos conscientizamos de nossa permanente incompletude, à busca de algo que sentimos “ausentes” do nosso ser (Camille Claudel).
 
Seguir cegamente os volúveis “eus” nas suas querências é dispersar energia. 
 
Flexibilidade exige economia de esforço para a execução de uma ação – física ou mental. Concentração, portanto. Foco! Um músculo flexível é um músculo que foi repetida e persistentemente usado, contraído e relaxado, um músculo reconhecido em extensão e em intensidade.  
 
Vale para músculos mentais também, tipo “capacidade de espera”.   Para o aprendizado da “paciente espera” temos que nos exercitar a reconhecer a dependência – não somos onipotentes, mágicos, deuses – dependemos de instrumentos, de gentes, de compaixão pelas nossas deficiências.  
 
Repetidamente, temos a experiência de estender o desejo, e de contraí-lo na frustração de não realizálo, de não ser compreendido pelo outro. Assim  ampliamos a capacidade de suportar a frustração. Podemos, então,  flexibilizar o caminho entre o desejo e sua realização, sem desistir, nem criar uma ruptura de ligamento.  
 
Em suma, “treinar frustração” é condição para desenvolver o “músculo” da capacidade de espera...Outras palavras: não é proveitoso desperdiçar energia, Chi. Vital usar a potência do motor, repetida e atentamente, sabendo o destino da busca e aproveitando a viagem. Ufff. 
 
Viver é um treino constante...e não se chega à perfeição.  E tem prazo de validade. Como diz o mestre do meu guia de Tai Chi:  “o feito é melhor do que o perfeito”.  Ou como diz meu marido: “o melhor remédio é o que se usa”. 
 
Enfim...     

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